Em entrevista ao jornal OPAÍS, o professor universitário Domingos das Neves falou da crise de valores que assola a família e a sociedade angolana. Durante a conversa, o docente destacou os males que afectam as instituições públicas, assim como a corrupção, um mal que continua a roer vários segmentos da sociedade angolana, a fim de que seja combatida não só com a lei, mas também com a educação assente na moral e na ética. Quanto ao número de crianças, o futuro de qualquer país, fora do sistema de ensino e nas ruas, lamentou e espera que as prioridades em relação ao que se pretende para o bem de todos os angolanos sejam invertidas a curto, médio e longo prazo
A família angolana, se assim se pode dizer, anda em crise. A moral estará a falhar?
Infelizmente, a ideia que temos de moral e de ética, quando ouvimos falar, parece-se assim a produtos que se compram e se vendem nos supermercados. Não é isso! A moral e a ética fazem parte dos princípios e valores cultivados na família, porque cada um de nós provém de uma família, e, depois, nas ou- tras instituições, como nas escolas por onde passamos e nas igrejas. São articulações que têm de ser feitas com base em, digamos assim, orientações claras, onde concorrem não só o Estado, mas outras instituições como as igrejas, por exemplo, como as associações cívicas, como os próprios partidos políticos. E é aí onde se delineia, então, o chamado projecto de nação, em que vemos orientações muito claras, específicas para a nossa vida quotidiana.
Depois, vemos esses valores, esses princípios com o respaldo, por exemplo, na “lei-mãe”, que é a Constituição. A Constituição da República de Angola, se vir bem, ela tem uma parte, acho que são 22 artigos, e é como se fosse o nosso Bilhete de Identidade. Ali devia constar os valores e os princípios em que está assente o Estado angolano. Isso não é só uma questão de embelezar. É que tem que se acreditar mes- mo nisso. Naquilo que está ali! Não é só copiar de outras Constituições, não! E aí a importância, por exemplo, das chamadas Assembleias Constituintes, em que essas assembleias são chamadas para exactamente se dicutir esses pressupostos de base e chegar-se a consensos políticos sobre as bases que vão orientar a nossa vida, baseada nesse “bilhete de identidade” que são os primeiros 22 artigos da nossa Constituição. Ora, isso não aconteceu; aconteceu tudo, menos isso.
Houve pouca discussão sobre a Constituição, a sociedade civil foi praticamente relegada ao terceiro plano, não houve consultas, mais do que consultas, são mesmo discussões públicas que depois orientariam as discussões da Assembleia Constituinte. Então, hoje, temos esse problema, porque viemos de uma situação de conflito armado, em que quando se decidiu em 2002 o fim do conflito armado, devíamos então aproveitar, discutir sobre que orientações devíamos basear a vida do Estado, a vida da nossa nação e daí para frente. Decidiu-se uma coisa que é certa; nunca mais a guerra, calar as armas. Isso, graças a Deus, até hoje persiste. Mas, isso só não é suficiente. Temos que pensar nos pressupostos da Reconciliação Nacional, nas bases dos projectos de desenvolvimento do país; tudo isso não se pensou! E hoje vemos toda essa situação de degradação social, mesmo depois de 20 anos do fim da guerra, temos situações degradantes, pessoas a viverem, a morrerem, a catarem no lixo para comerem, a viverem de uma maneira desastrosa. Esse é um país com tanta riqueza, e até a natureza é a nosso favor, mas mesmo assim nós não conseguimos!
Para a compreensão mínima, até do último cidadão, o que é então a moral?
A moral, como disse, são princípios e valores quase sempre inegociáveis que orientam a vida de uma pessoa e do grupo, porque a pessoa não vive sozinha, não vive isolada, vive em grupo. Interagimos uns com os outros, nascemos numa família, crescemos numa família. Então, aqueles valores de base, digamos assim, de educação, como não roubar, não matar, não tirar as coisas dos outros, não desrespeitar os mais velhos, nem os seus pares, tratar bem as pessoas, tratar bem os hóspedes, tratar bem as pessoas mais desfavorecidas, os órfãos, as viúvas, quer dizer, tudo isso não são elementos abstratos, são coisas concretas, que nós, na vida de todos os dias, tratamos.
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