Há árvores cuja sombra ultrapassa o ter reno onde foram plantadas. Quem descansa debaixo delas nem sempre conhece a mão que lançou a primeira semente. Mas encontra ali abrigo e leva consigo alguma coisa daquela passagem.
A memória de um País também pode viajar assim: através de um livro, de uma luta ou de uma pergunta que outra geração reconhece como sua. A 17 de Setembro, Angola regressa ao nome de Agostinho Neto.
Regressa através das cerimónias, dos monumentos e das palavras que aprendeu a repetir. Neste ano, em que se assinalam 104 anos do seu nascimento, importa saber se regressa também aos livros.
Por que uma Nação pode conservar o rosto de um fundador e perder, lentamente, o hábito de conversar com o seu pensamento. Poucos dias antes desta efeméride, o Presidente do Botswana, Duma Gideon Boko, depositou uma coroa de flores no sarcófago de Neto, em Luan da.
O gesto, noticiado em 8 de Setembro, inscreve-se na linguagem das homenagens entre Estados. Não permite, por si só, medir uma influência intelectual. Permite, porém, abrir uma reflexão sobre aquilo que a memória angolana representa nas relações com os seus vi zinhos.
O que oferecemos ao mundo quando apresentamos Agostinho Neto? Uma fotografia de arquivo? O primeiro Presidente de Angola? O dirigente de uma luta de libertação? Um médico que escreveu poesia? Cada resposta revela uma dimensão.
Nenhuma, isolada mente, encerra a complexidade da figura. A obra literária oferece um caminho que a solenidade pública nem sempre percorre.
Em Sagrada Esperança, publica da em 1974, a experiência co lonial ganha expressão através da dor, da pertença e da procu ra de liberdade. A leitura exige atenção à linguagem e às pes soas que nela aparecem. Exi ge que o poeta seja encontrado no poema, antes de ser convo cado para confirmar uma opi nião política.
Por: EDGAR LEANDRO












