Integrávamos um grupo de jornalistas quando, um dia, em Pequim, visitámos o Ministério das Relações Exteriores da China. Saídos de Luanda, Angola, desde sempre havia em nós algumas dúvidas em relação aos famosos empréstimos concedidos ao Estado angolano depois do fim do conflito armado, na sequência da morte de Jonas Savimbi nas matas do Lucusse, no Moxico.
Era sabido que, após o longo conflito, Angola iria precisar de um apoio externo para que se pudesse reconstruir. Eram inúmeros os desafios e as infra estruturas destruídas ao longo de décadas que uma economia em ruínas, na altura, não iria suportar.
Houve sempre, por parte do Ocidente, independentemente das acusações que corriam, já na época, da existência de corrupção que seria possível a realização de uma conferência de doadores.
A verdade é que ela nunca ocorreu, havendo momentos em que muitos, no Ocidente, até mesmo com apoio de forças angolanas, alimentavam a ideia de que o país possuía recursos suficientes para sozinho reerguer milhares de escolas, pontes, estradas, barragens, desminagem e muitos projectos económicos.
O recurso à China era inevitável. Aliás, além de Angola, até mesmo muitos países do chamado primeiro mundo piscaram os olhos ao gigante asiático em momentos difíceis das suas economias.
Portanto, para um país saído de uma guerra longa, com muitos desafios pela frente, incluindo primários, não haveria qualquer inconveniente que se fosse ao mesmo pote em países e empresas europeias, americanas e outras que estiveram inicialmente.
Os critérios de financiamento, a forma de pagamento e o destino dos recursos eram, para muitos, o verdadeiro handicap de um processo que esta semana motivou o retorno aos holofotes do antigo vice-presidente da República, Manuel Vicente, que foi, igual mente, um dos mais longevos presidentes do Conselho de Administração da petrolífera Sonangol. Sedenta por recursos, a China não pestanejou.
Abriu os cordões à bolsa, atribuindo cerca de 50 mil milhões de dólares desde 2004, altura em que, através do Eximbank, se concederam os primeiros empréstimos.
Em contrapartida, os chineses exigiram o petróleo angolano, uma condicionante que os negociadores angolanos aceitaram, mas que hoje Manuel Vicente critica. Mais de 20 anos depois, os pronunciamentos de Manuel Vicente indicam, claramente, que houve alguma imprudência por parte daqueles que foram incumbidos de negociar o futuro dos angolanos, muitos dos quais acabaram por se tornar verdadeiros milionários.
Alguns deles até associados em negociatas com empresários provenientes do esforço que o Estado esperava que beneficiasse grande mente os cidadãos angolanos. Naquela visita à China, perguntamos a um dos responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre a qualidade das obras feitas em Angola, uma das questões que sempre inquietou os angolanos.
Com muita seriedade, lembro-me de ele ter respondido apenas: ‘tudo o que fizemos foi aquilo que nos pediram’. Ainda bem que, anos depois, surgiu um Presidente da República, João Lourenço, que inverteu a lógica do negócio. Dinheiro por dinheiro. E não petróleo por dinheiro. É o que conclui também, agora, Manuel Vicente.










