Na praça do Saba dão, aquele pedaço de chão que o sol não desiste de beijar e onde o pó se levanta só de olhar, o tempo anda devagar. É Sábado, claro. O nome da praça não é coincidência. Ali, os bancos de madeira rachada servem de trono, as mangueiras dão sombra generosa e as conversas nascem como se alguém tivesse acendido um fósforo no meio do ar.
Sentados lado a lado, como quem não tem pressa de chegar a lado nenhum, estavam o Kalumbombo das três mentiras, a tia Jamba do cabelo de ferro e o jovem Kilas, que jura que já leu dois livros e por isso se acha filósofo. — Vocês ouviram o que o fulano disse ontem na reunião do bairro? começou o Kalumbom bo, mexendo no chapéu de palha como se ele fosse cúmplice.
O homem veio com aquela voz de quem comeu dicionário e estudou as palavras todas. Disse que a gente precisa “discutir” os problemas da água. A tia Jamba bateu a mão na coxa e soltou uma gargalhada que espantou dois pombos. — Discutir? Discutir, Kalum bombo? Esse homem não é daqui! Daqui a gente não discute, meu filho.
Daqui a gente discote. Kilas, que estava a tentar parecer sério, quase se engasgou com o caveneno. — Discote, tia? Como é isso? — É assim, menino. Quando o angolano fica zangado de verdade, ele não discute.
Ele discote. É mais rápido, mais quente e sai direto do peito. “Eu vou disco tir contigo agora mesmo!” imitou ela, apontando o dedo para o nada, como se o adversário estivesse ali, escondido atrás da mangueira. O Kalumbombo assentiu com a gravidade de quem já discotiu muitas vezes na vida. — É verdade. Lembro-me quando o meu vizinho meteu a mão no meu quintal e colheu três mangas.
Eu não fui lá discutir. Fui lá discotir. Cheguei, olhei para ele e disse: “Ó homem, tu e eu vamos discotir agora. Essas mangas têm dono e o dono sou eu.” Ele ainda tentou explicar, mas eu já estava em modo discotir. Não há defesa que aguente. Kilas riu tanto que quase caiu do banco. — Então discoto é tipo discutir, mas com mais tempero e menos paciência? — Exactamente, confirmou a tia Jamba.
Discutir é coisa de gente que tem tempo e fala mansa. Discoto é quando a conversa já vem com fogo, com dedo no ar e com aquela certeza de que o outro está errado desde o nasci mento.
E o melhor é que depois a gente ainda se abraça e vai beber uma cerveja. Porque discoto não é ódio. É só o sotaque da terra a trabalhar. Naquele momento passou um vendedor de ginguba, gritando: —Ginguba torradaaa! Quem quiser discoto o preço, eu estou aqui! Os três explodiram em riso. Até o vendedor parou, confuso, e de pois riu também, sem saber bem porquê.
A tia Jamba limpou uma lágrima do canto do olho e suspirou, olhando para a praça cheia de gente a falar alto, a gesticular, a inventar palavras e a torcer o português até ele ficar com o jeito de casa. — É isto, meus filhos.
O sota que da minha terra não pede licença. Ele entra, senta-se, põe os pés em cima da mesa e diz: “Aqui a gente discote, ri e continua a viver.” E se alguém não gostar… bem, eu discoto com ele também. O sol já ia baixando, mas na praça do Sabadão ninguém se mexeu. Ainda havia muita conversa pela frente. E, se calhasse, algum discoto de leve, só para manter a tradição.
Por: FERNANDO SAMBUNDI





