Há coisas que nos contam e que, depois de ouvidas, já não conseguimos deixar de saber. Algumas são pequenas, quase banais, daquelas que ouvimos numa conversa e esquecemos pouco depois. Outras são diferentes. Vêm acompanhadas de um olhar mais demorado, de uma pausa antes de falar e daquela frase que normalmente aparece logo no início: “Vou contar-te uma coisa, mas isto fica entre nós.” Quando alguém nos entrega um segredo, não está apenas a darnos uma informação.
Está a entregar-nos uma parte da sua vida que decidiu não mostrar a toda a gente. Pode ser uma preocupação, uma dificuldade familiar, uma situação profissional, uma decisão que ainda não consegue assumir publicamente, uma história antiga ou simplesmente alguma coisa que precisava de sair de dentro e encontrou em nós um lugar seguro para pousar.
Naquele momento, a pessoa está a dizer, sem necessariamente usar essas palavras: “Eu confio em ti.” E isso é uma responsabilidade maior do que parece. Há pessoas que sabem guardar segredos. Conseguem ouvir, compreender, acolher e seguir a vida sem sentirem necessidade de transformar aquilo que lhes foi confiado numa moeda de troca social.
Outras, porém, mal recebem a informação, já começam a procurar alguém com quem possam partilhá-la, normalmente acompanhada daquela expressão que deveria fazer soar todos os alarmes: “Mas não conta a ninguém.” É curioso como funciona este nosso mundo dos segredos. A pessoa conta a A e pede segredo.
A conta a B também pede segredo. B acha que precisa de desabafar com C e faz exactamente o mesmo pedido. C conta a D, D conta a E e, quando finalmente alguém percebe o tamanho daquilo que aconteceu, já metade do bairro sabe, duas famílias estão a discutir e a pessoa que confiou inicialmente nem imagina como a sua vida privada conseguiu fazer uma viagem tão grande.
E no meio diaso tudo, quase ninguém se considera responsável pela divulgação. “Eu só contei a uma pessoa.” É assim que muitos segredos deixam de ser segredos. Não foi uma grande revelação pública. Foram pequenas cedências, uma pessoa de cada vez, sempre acompanhadas da promessa de que dali não passaria. É por isso que, para mim, confiança não se mede apenas pelo que fazemos quando estamos diante de alguém. Mede-se também pelo que fazemos quando essa pessoa não está presente para saber o que estamos a dizer sobre ela. É fácil parecer uma pessoa de confiança quando alguém está a olhar para nós.
O verdadeiro teste começa depois. Quando temos uma informação que nos dá poder, quando sabemos alguma coisa que os outros não sabem, quando surge a oportunidade de impressionar alguém com aquilo que sabemos e, ainda assim, escolhemos ficar calados. Porque saber coisas sobre os outros pode dar uma sensação estranha de importância. Há pessoas que parecem sentir-se mais relevantes quando têm uma informação exclusiva.
“Eu sei uma coisa que vocês não sabem.” E, de repente, aquilo que deveria ser apenas um segredo transforma- se numa espécie de estatuto. Precisamos de ter cuidado com isso. Nem tudo aquilo que sabemos precisa de ser dito. Nem tudo aquilo que nos perguntam precisa de ser respondido. Nem toda a informação que chega até nós nos pertence. Esta última talvez seja uma das coisas mais difíceis de aprender. Há informações que entram na nossa vida apenas porque alguém nos escolheu como depositários delas. Não nos foram dadas para utilizar, publicar, comentar ou distribuir. Foram dadas para guardar.
E guardar também é uma forma de amar. Pensemos agora no outro lado. O que acontece quando somos nós a contar? Quando escolhemos alguém para dividir aquilo que nos pesa, estamos a expor uma parte de nós. Estamos a correr um risco. Porque depois de falar já não conseguimos controlar completamente o destino das palavras. Por isso, confiança também exige discernimento. Não devemos entregar a nossa intimidade a qualquer pessoa apenas porque naquele momento sentimos necessidade de falar.
Há pessoas que são excelentes companheiras para uma conversa descontraída, mas não são necessariamente lugares seguros para aquilo que é mais de- licado dentro de nós. E isto não é uma acusação. É apenas maturidade. Assim como precisamos de aprender a guardar aquilo que nos confiam, também precisamos de aprender a escolher onde depositamos aquilo que é nosso. Há outra questão que me parece ainda mais interessante: o que fazemos quando recebemos um segredo que nos incomoda? Porque nem sempre é fácil saber alguma coisa que preferíamos não saber.
Podemos descobrir uma situação familiar complicada, saber de uma traição, perceber uma dificuldade financeira, ouvir uma confissão dolorosa ou tomar co- nhecimento de alguma coisa que nos coloca numa posição desconfortável. E ficamos ali com aquela informação dentro da cabeça, a pensar no que fazer com ela. Nem sempre temos de fazer alguma coisa. Às vezes, a nossa função é simplesmente ouvir. Há pessoas que, quando alguém lhes conta um problema, sentem imediatamente necessidade de resolver. Dão conselhos, procuram soluções, envolvem terceiros e começam a movimentar o mundo inteiro para corrigir uma situação que, naquele momento, apenas precisava de ser ouvida.
Nem sempre quem fala está a pedir uma solução. Às vezes está apenas a pedir um lugar seguro para pousar aquilo que está a carregar. E m uma das formas mais bonitas de demonstrarmos maturidade é conseguirmos receber a dor de alguém sem imediatamente transformá-la numa história nossa pa- ra contar. Imagine por um instante que todas as pessoas que já confiaram alguma coisa a si pudessem ouvir, neste exacto momento, todas as conversas que teve sobre aquilo que lhe contaram. Sentiria orgulho? Ou existiriam algumas conversas que preferiria que nunca tivessem acontecido? A pergunta pode ser desconfortável, mas é importante. Porque todos nós, em algum momento, já estivemos dos dois lados.
Já confiámos e já recebemos confiança. Já guardámos coisas que nunca contámos a ninguém e também já tivemos aquela vontade de dizer “só vou contar a esta pessoa”. O problema é que, quando se trata da intimidade dos outros, “só esta pessoa” já é uma pessoa a mais. E não estou a dizer que devemos guardar tudo em silêncio, independentemente das circunstâncias.
Existem situações em que procurar ajuda, proteger alguém ou partilhar uma informação com quem tem responsabilidade para intervir é precisamente o correcto. Confidencialidade não significa cumplicidade com aquilo que pode causar dano. Mas fora dessas situações, há uma pergunta simples que pode evitar muita coisa: Isto que estou prestes a contar é meu para contar? Se a resposta for não, talvez o si- lêncio seja a resposta mais bonita.
Porque as palavras, depois de saírem da nossa boca, já não conseguimos recolher. Uma pessoa pode perdoar-nos por muitas coisas, mas descobrir que aquilo que nos confiou circulou entre outras pessoas pode destruir uma coisa muito mais difícil de reconstruir: a confiança. E confiança é uma daquelas coisas que se constrói devagar, através de pequenas provas ao longo do tempo, mas pode desaparecer numa única conversa. Por isso, se alguém lhe entregar hoje um segredo, não pense apenas na curiosidade que acabou de receber. Pense na confiança que acabou de receber. Se alguém lhe disser “não conte a ninguém”, não veja apenas uma oportunidade de possuir uma informação exclusiva.
Veja um pe- dido de respeito. E se, por acaso, já tiver na sua memória alguns daqueles segredos que lhe foram confiados há muitos anos e que continuam exacta- mente onde deveriam estar, guardados, saiba que existe uma espécie de dignidade silenciosa nisso. Ninguém vai bater à sua porta para lhe dar um prémio por aquilo que não contou. Ninguém vai saber que você teve a oportunidade de falar e escolheu calar. Mas a pessoa que confiou em si poderá continuar a dormir tranquila sem saber que a sua história esteve segura nas suas mãos. E isso, por si só, já é alguma coisa.
No fundo, ser uma pessoa de con- fiança não é saber muitos segredos. É fazer com que aqueles que sabem alguma coisa sobre nós tenham a tranquilidade de acreditar que a nossa boca não será o lugar por onde a sua intimidade vai escapar. Porque há coisas que nos contam para serem ouvidas. Há coisas que nos contam para serem compreendidas. E há coisas que nos contam sim- plesmente porque, naquele momento, alguém precisou de encontrar em nós um lugar seguro. Que saibamos ser esse lugar.
POR: LÍDIO CÂNDIDO (VALDY)





