Quem viveu intensamente a política antes do alcance da paz efectiva, após a morte do líder da UNITA em 2002, nas matas do Lucusse, recordar-se-á a participação intensa que tiveram os movimentos cívicos e outras organizações para que as forças governamentais e as extintas FALA chegassem finalmente a um entendimento.
Na época, muito por força da refrega suscitada pela recusa pelos resultados das eleições de 1992, viu-se o aproximar de muitos indivíduos a estas organizações cívicas – e não- governamentais – até então tidas como verdadeiros meios de pressão. Acredito ter sido a Associação Cívica de Angola uma das primeiras.
Aquela em que se reuniram muitos angolanos, entre jornalistas, políticos, actores e outros, tentando impulsionar os direitos e deveres dos cidadãos, assim como intervindo na apreciação e até na busca de soluções para questões pertinentes que afligiam os milhares de angolanos. Mas o leque daquelas que se batiam era extenso. Participei em inúmeros encontros do Comité Inter-Eclesial para a Paz em Angola (COIEPA), em que pontificavam o arcebispo Dom Zacarias Kamuenho, o pastor Daniel Ntony Nzinga e outras figuras da própria sociedade angolana com um certo destaque.
Nos últimos tempos, por incrível que pareça, quase que não se consegue dissociar muitas das ditas organizações que dizem pertencer à sociedade civil porque os seus responsáveis não conseguem manter alguma neutralidade. O constante aceno político que muitas destas figuras vão sofrendo coloca-os muitas vezes na pele de actores, porque não acredito que, em certas ocasiões, se possam afastar daqueles que são os desígnios das formações políticas.
De uma só sentada, na última semana, viu-se a tomada de posse enquanto comissários da Comissão Nacional Eleitoral no Parlamento de figuras que eram destacadas a nível do movimento cívico e até sindical. Por mais que se mencione, por exemplo, a questão da independência, ainda assim não deixa de ser verdade que a missão principal será mesmo a de defender os interesses de quem sugeriu os nomes. Nada contra o facto de muitos dos integrantes da sociedade civil poderem ingressar na política.
Porém, os países não são só feitos de partidos políticos, razão pela qual acredito que muitas organizações da sociedade civil acabam por jogar um papel importantíssimo. Por isso, mais do que desmantelá-la, seria de todo interesse que se afirmassem ainda mais, tendo em conta as necessidades do país em vários domínios.





