Há três semanas, depois de uma incursão em serviço pelo Uíge, um colega chegou à redacção, visivelmente feliz, e atirou: ‘afinal, no interior produz-se muito’. A razão do desabafo, pelo que pude perceber, prendia-se ao facto de, com pouco dinheiro, segundo o próprio, ter conseguido adquirir uma quantidade satisfatória de produtos agrícolas capazes de custar três ou quatro vezes mais na capital do país.
Quem anda pelo interior tem uma mínima noção do que se passa nestes tempos em que nem tudo é meme, por que, como se soe dizer, há um país a acontecer noutros cantos deste vasto território. Quando, há alguns meses, o Conselho de Ministro deliberou que os importadores tinham de, obrigatoriamente, adquirir 20 por cento dos seus produtos a nível in terno, houve quem tivesse esboçado um sorriso no rosto, indagando-se sobre que produção interna seria esta e onde se buscaria para se suprir a exigência feita pelo Executivo angolano.
Enquanto muitos se acotovelam nas grandes cidades em busca de meios para sobrevivência, há, do outro lado, um grupo de jovens e mais velhos que vão transformando o campo, cultivando e diminuindo a dependência que Angola foi sofrendo ao longo de décadas. Hoje, por incrível que pareça, são várias as localidades com a produção de arroz a um ritmo acelerado.
Em Malanje, os municípios do Luquembo e outros na conheci da região Songo estão na pole-position. Em Benguela, pelo que consta, a Ganda e o Cubal estarão entre aquelas que, nos últimos tempos, vão produzindo, aguardando-se apenas pelo escoamento para as grandes cidades e, futuramente, para os centros comerciais.
No Uíge, até então conhecido como a terra do Bago Vermelho, no município do Songo, também há enormes quantidades produzidas, muitas das quais acabam por ser escoadas para a vizinha República Democrática do Congo. E a lista é enorme em relação ao arroz.
Há nas Lundas e também no Moxico. À semelhança, outros produtos como feijão, milho, batata-rena, trigo e não só acabaram por ser de produção nacional, deixando as importadas para aqueles que se julgam ter as papilas gustativas mais exigentes.
São inúmeros os exemplos, incluindo de fábricas que hoje produzem com base na produção nacional, como as de farinha no Huambo e no Bié, dos jovens Felisberto Capamba e Alfeu Vinevala, que muitos teimosamente preferem não acreditar, porque, se calhar, esperavam que o país continuasse numa dependência absurda, como num passado recente em que os olhos só estavam direccionados aos barcos nos Portos de Luanda, Lobito (Benguela) e Moçamedes (Namibe).
Há dias, numa entrevista a uma rádio em Luanda, o empresário Adérito Areias disse, sem pestanejar, que se sente, sim, que o Executivo está a fazer alguma coisa para aqueles que produzem. Pena é que, hoje em dia, muitos vão preferir alardear aos quatro cantos que tu do é meme, mas não.









