Por estes dias, a política brasileira voltou a estar ao rubro. Em causa está a classificação de dois grupos criminosos pelo Governo dos Estados Unidos como terroristas. Trata-se do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), responsáveis por tráfico de drogas, armas e homicídios em quase todo o Brasil, influenciando, inclusive, alguns sectores da própria política interna.
Há alguns anos, fala-se da intervenção destas duas facções em outros países, incluindo europeus e africanos, onde exportam drogas e outros produtos. Não obstante este facto, as autoridades brasileiras continuam a combatê-los, prendendo os seus principais responsáveis, assim como punindo políticos que, há algum tempo, integram os grupos ou efectuam lavagem de dinheiro para eles.
Mas, além dos crimes e da questão da segurança pública, a actuação do PCC e do CV é aproveitada para se fazer política. Faz algum tempo que a família do ex-presidente Jair Bolsonaro luta para que se classifiquem os grupos, como agora ocorreu, mas a verdade é que não está em causa qualquer interesse em se combater estas organizações, mas utilizá-las para se verem favorecidos nas próximas eleições em que possivelmente irá concorrer Flávio Bolsonaro como candidato da direita.
Com a classificação dos grupos como terroristas, é possível que os Estados Unidos de Donald Trump se sintam tentados a intervir militarmente ou através da sua célebre agência CIA no Brasil. Um assunto que já mexe com a soberania do país, uma realidade que parece desprezada pelos apoiantes da direita brasileira.
A luta pelo poder, quando feita de forma desonesta – e errada – acaba sempre por comprometer interesses maiores, incluindo mexer-se com a soberania dos Estados, depois revertida para o acesso das suas principais matérias-primas, usadas como moedas de troca.
Há alguns anos, depois de algumas divergências in ternas, um político angolano, que agora almeja chegar ao cargo de Presidente da República, havia anunciado que se iria queixar aos Estados Unidos, ou seja, ao seu Departamento de Estado, por conta de assuntos e decisões internas que lhe tinham sido desfavoráveis.
Só que não se trata de uma posição isolada. É quase uma tendência que existe num certo segmento da nossa política interna. Quando confrontados com situações menos favoráveis, recorrem às principais chancelarias internacionais para reportar temas que, muitas das vezes, os próprios se escusam a encontrar soluções no próprio país e nas suas instituições.
Agora que se aproximam as eleições, seguramente veremos outros, em coro, a alardear pelos quatro cantos que gostariam de ver que um determinado país – ou o seu presidente – tivesse atenção sobre o nosso processo.
Muitas vezes, esquecem-se estes, que se apresentam inicialmente como patriotas, de que um dia destes estarão a entregar de bandeja a soberania do país, só que com um pretexto que quem está do outro lado aguarda para ter acesso àquilo que era suposto ser de todos.
A confiança nas instituições angolanas não pode ser somente quando elas tomam decisões que nos são favoráveis. Vezes há em que o desejável é saber se os que batem às portas das chancelarias estão mesmo certos das decisões e das razões rejeitadas.







