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Bali Chionga: “É verdade que a luta contra a corrupção não é contra animais, é contra pessoas”

Sebastião Félix por Sebastião Félix
15 de Maio, 2026
Em Entrevista
Daniel Miguel

Daniel Miguel

Em entrevista ao jornal O PAÍS, o professor universitário e analista político, Bali Chionga, reflectiu sobre problemas sociais, políticos e económicos. Numa conversa descontraída, referiu que há aspectos positivos na governação do Presidente João Lourenço, reconhecendo que os problemas que afligem a população, com políticas públicas fiáveis, serão ultrapassados.

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Quanto ao combate à corrupção, Bali Chionga reitera que deve continuar. Pois, num passado recente, prejudicou as estruturas mais importantes do país. Finalizando, admitiu que a estratégia do presidente do MPLA, no partido, continua a aumentar os índices de democraticidade Hoje, quem circula por Luanda e arredores depara-se com crianças de rua, o que estará a faltar?

Primeiro temos que admitir que as condições sociais em Angola não são tão boas como as que desejamos. Claramente, apesar dos esforços do Executivo, temos pobreza. Os dados devem ser reconhecidos, indicam que o índice aumentou, mas também precisamos olhar para a forma como cuidamos das nossas crianças, porque, de facto, já não há tanta criança de rua, mas temos crianças na rua; é um fenómeno que tem de ser analisado na sua complexidade. Por exemplo, há crianças na rua, porque existe uma espécie de desestruturação de famílias. Temos também o fenómeno da violência contra as crianças muito ligados a questões, não diria culturais, mas de violên- cia doméstica. Há crianças que são acusadas de feitiçaria e tudo mais. Isso pressupõe dizer que não é só a nível económico que justifica a existência de crianças na rua. Por isso é que o país e Luanda, essencialmente, têm muitos centros de acolhimento. Esses centros fazem o trabalho necessário para tirar as crianças da rua, e depois se fazer a reunificação familiar. Em princípio, o lugar onde as crianças devem crescer e se desenvolverem é na família.

O que é preciso fazer?

Primeiro, temos políticas públicas, por isso é que existe o Instituto Nacional da Criança (INAC), só que, ao mesmo tempo, precisamos que essas políticas públicas sejam implementadas com eficácia e de um INAC mais actuante e também de um tecido religioso mais actuante. Somos um país com um rácio de 90% de cristãos. O Cristianismo é, essencialmente, uma religião de solidariedade e de união. A conclusão muito imediata que iríamos tirar é que teríamos um país mais solidário, mais unido e mais preocupado com os pobres, mas nós não temos isso. Significa dizer que a Igreja precisa fazer um trabalho melhor. O Executivo também precisa fazer um trabalho melhor com as famílias, porque a resposta não são os centros de acolhimento. A resposta tem que continuar a ser a família e, mesmo quando tem de ser uma família alternativa, que pode ser uma resposta temporária positiva, é também uma resposta a que se deve apostar. Portanto, diria que não devemos continuar a apostar nos centros de acolhimento, mas nas famílias.

O que as famílias precisam?

As famílias precisam ter melhor renda. Existem famílias que precisam muito ser potenciadas. Há programas que estão a dar respostas muito interessantes. O Kwenda é um desses programas. O relatório está ali, os resultados são, de facto, muito interessantes. Aliás, os jornais privados testemunham isto.

Há alguma reclamação em relação ao Kwenda (lançado em 2020 pelo Executivo angolano para apoiar famílias em situação de pobreza)?

Por exemplo, com maior abrangência, beneficiou muito poucas pessoas e, depois, um volume maior do ponto de vista da própria contribuição. Então, está aqui o indicador claro de que se o Executivo apostar nisso, se não me engano, há inclusive a ideia de se ter uma versão (dois) do Kwenda; quando isto acontece, significa que a resposta é boa. Depois, penso que precisamos trabalhar com políticas demográficas. Não temos políticas demográficas. Um país como o nosso, que cresce 3% ao ano e com a economia que, por exemplo, oscila e nem sempre cresce acima do crescimento populacional, tem que ter uma política demográfica. Temos que decidir como é que nós queremos crescer, porque a forma como estamos a crescer, a nossa economia não aguenta. E, portanto, ciclicamente, vamos ter problemas sociais, cuidados com as crianças, exactamente porque elas crescem em número maior, superior à velocidade da economia.

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