Sempre que posso, recuo no tempo. Aliás, só assim conseguimos nos desfazer de algumas coisas más que atormentam a nossa memória, muito por conta da depredação que o Homem Novo nos vai proporcionando. Quando mais novos, no Cazenga em que vivemos, era possível ver muitos campos pelados, onde se davam os primeiros passos no futebol, e de lá saíram alguns craques que despontaram intramuros e além-fronteira.
Muitos dos espaços estavam localizados em áreas devidamente organizadas, o que não impediu a ganância de uns em os ocupar. Como consequência, hoje, depois de meio século de independência, vimos os bairros, comunas e municípios completamente transformados.
Não importa se estejam dentro de um projecto devidamente organizado, ainda assim, hoje muitos dos espaços públicos não resistem. Depois do alcance da paz no país, o Executivo edificou algumas centralidades, onde se esperava que os cidadãos pudessem viver sem os problemas que ainda agudizam a periferia, incluindo a construção anárquica de imóveis ao seu redor. Nasceram o Kilamba e o Sequele em Luanda.
E outras centralidades pelo país, principalmente nas principais capitais. Zonas onde os cidadãos se inscreveram para buscar sossego e qualidade de vida, diferente daquelas que tinham nos seus bairros originários. À medida que o tempo vai passando, o sossego e estes aglomerados habitacionais se vão esfumando.
Os espaços vazios, alguns dos quais dariam lugar a projectos sociais do próprio Estado, vão dando lugar a nossas construções, muitas das quais distantes daquilo que se poderia esperar nas referidas zonas. É este o cenário que se assiste naquelas centralidades que eram autênticas ex-libris, como Kilamba, onde os seus espaços vazios não resistiram à apetência desenfreada de muitos, sem qualquer intervenção das próprias autoridades.
A cada dia que passa, a alma e a paz de espírito que se pensava poder existir vão se esfumando. Na mesma senda, outras centralidades no país vão seguindo o ritmo. Sem qualquer pejo, quase que já não restam espaços. E pior é que as construções não obedecem sequer àquilo que inicialmente estava programado. Não nos espantemos se brevemente encontrarmos becos em plenas centralidades, porque é este o caminho que vai sendo gizado pela balbúrdia em curso.









