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Chove e não molha

Jornal OPaís por Jornal OPaís
28 de Abril, 2026
Em Opinião

Em pleno final de Abril, conhecido como mês de “chuvas mil”, surgiu pelas bandas da Assembleia Nacional, uma cobertura de nuvens densas e escuras, carregadas de nebulosidade que, à primeira vista, parecia revestida de intenções nobres, mas que, ao ser analisada à lupa, revelou-se como aquilo que o senso popular descreve com precisão cirúrgica: chove… mas não molha.

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É precisamente nesse ambiente que se insere a iniciativa do Grupo Parlamentar do Galo Negro, chumbada, nesta quinta-feira, durante a Reunião Plenária Ordinária, que propunha, dentre outros projectos-lei, a revisão do regime de observação eleitoral vigente no país.

A narrativa construí da pelo (ainda maior) partido da oposição, assentava numa premissa recorrente, cujo plano é sedutoramente retórico, que é a de que o reforço da observação eleitoral, com maior inclusão de actores da sociedade civil e au mento do número de observa dores, seria a chave para garantir transparência e credibilidade no processo eleitoral de 2027.

Sinceramente, a referida proposta de lei, que alguém teve a gentileza de partilhar comigo, e a dado momento pensei até que o roteiro foi redigido pelo “general foge a tempo”, do grupo de humor “os tuneza”, por quem tenho admiração, carece de consistência estrutural e de rigor científico, revelando a profunda disfuncionalidade paranoica a que se entregou este partido.

Parafraseando o malogrado Papá Kitoco, o pioneiro da naturopatia tradicional no país, “essa gente emaluqueceu”. Porque transformar a observação eleitoral numa quantidade de “bófias“ vigilantes é, na prática, uma tentativa de teatralizar a democracia. É como, usando um paralelismo com a linguagem desportiva, ter “árbitro, árbitros assistentes, quarto-árbitro, comissário ao jogo e o vídeo-árbitro (conhecido como VAR)”, para apitar, ou melhor, fiscalizar, a torto e a direito, o processo eleitoral.

A insistência deste Partido em apresentar este tipo de proposta levanta uma questão incontornável: trata-se de um verdadeiro compromisso com o aperfeiçoamento democrático ou de uma estratégia calculada para semear dúvidas antes mesmo de começar o processo elei toral para as próximas eleições gerais? A experiência política angola na demonstra que, sempre que se aproxima um ciclo eleitoral, emerge um padrão previsível: “piocotar” a sociedade com discursos inflamados, denúncias antecipadas e tentativas sistemáticas de fragilizar a percepção pública sobre a legitimidade do processo.

É uma espécie de tempestade anunciada, acompanhada de fortes rajadas de trovoadas populistas, mas frequentemente desprovida de chuva real. Cria-se um ambiente de suspeição contínua, onde a narrativa da fraude potencial passa a anteceder os próprios resultados eleitorais.

Ao insistir nesta via, o (por enquanto maior) partido da oposição corre o risco de transformar um instrumento importante, que é a observação eleitoral, num ritual meramente protocolar, esvaziado de profundi dade estratégia eleitoral e instrumentalizado para fins políticos imediatos.

Em vez de fortalecer a confiança nas instituições, iniciativas similares, podem contribuir para o desgaste da credibilidade do próprio sistema democrático, ao insinuar permanentemente que este é insuficiente ou falível por natureza.

A proposta de revisão do regime de observação eleitoral apresentada pelo Partido do Galo Negro não representa, na sua essência, um avanço decisivo para a consolidação da fiscalização demo crática em Angola.

Trata-se, antes, de uma iniciativa que privilegia a aparência sobre a substância, assim como a chuva que cai sem molhar a terra. Fenómeno que produz pouco impacto real.

A crença de que a multiplicação de observadores pode, por si só, inverter resultados eleitorais é não apenas ilusoriamente bruta, mas também redutoramente vazia, própria de quem pouco ou quase nada conhece da inteligência do eleitorado angolano, que, confesso-vos, do pouco que conheço dele, é do tipo que não engole um grande pepino inteiro com jindungo.

Contudo há, neste contexto, uma dimensão mais ampla que não pode ser ignorada. Se o objetivo for, de facto, conquistar a confiança do eleitora do em 2027, o caminho não passa pela multiplicação de observadores ou pela amplificação de discursos de suspeição.

Passa, sim, pela construção de uma alternativa política credível, coerente, com propostas sólidas e concretas que melhorem a vida dos cidadãos, com ligação efectiva às aspirações do povo, com trabalho político consistente e com capacidade de mobilização social genuína.

Dito isto, fica como ponto as sente, que em 2027, a única certeza que se tem é que não está coarctada a possibilidade de que existam observadores elei torais para acompanhar as eleições gerais. Por isso arranjem outro argumento mais sério.

Por: NZONGO BERNARDO DOS SANTOS

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