Não formavam o melhor casal da família. Isso é verdade. Porém, seria inverdade e puro ‘invejismo’ da minha parte se eu dissesse que tia Luísa, ou mana Lu, como é carinhosamente tratada no seio familiar e entre amigos próximos, não era a tampa da panela do tio Cristo Mbunda. Só que, de repente, tudo mu dou quando tio Cristo Mbunda entrou no partido e se tornou ad ministrador de um dos municípios das terras do Jacaré Bangão (Bengo).
Mana Lu já não era mulher ideal aos olhos do tio Cristo, por simplesmente não usar títulos ou adjectivos finos ao se dirigir para com a pessoa dele, conforme se pode depreender nos seus dizeres: “Mulher de verdade é aquela que te respeita e celebra as tuas vitórias, e não aquela que te trata como se fosses uma pessoa qualquer neste país (professor, médico, escritor, só para citar). Aliás, mesmo até um zé-ninguém merece algum respeito,” tendo acrescentado ainda que “se ela não consegue me chamar ‘camarada mano amor’, então, pelo menos, ‘digníssimo esposo’.” Dizem por aí que os ‘kandengues’ do município que dirige o apelidaram de ‘papoite da juventude’, devido às farras constantes que tem realizado por lá, mas sobre isso, ainda não vos posso con firmar, só estou a vender o peixe como comprei, conforme dizem os brasucas.
Continuando. Soube pelo meu primo Zezito, primeiro filho do casal, que o tio Cristo está a quatro dias fora de casa e, por azar ou sorte, esqueceu o telefone no quarto, o que permitiu desvendar a ‘fachada’ por trás daquele suposto trato fino dele com a se mântica das palavras, quer dizer, todo aquele palavreado era só mesmo para arranjar uma brecha no lar e, assim, ‘banguesar’ a ‘munzúbya do kubico’ que não estava a comer noutros pratos lá fora.
E, por descuido ou ‘paixonitice’, ao invés de gravar o número da amante em ‘códico’ (sobrinha do Kibaxiou moça do carvão, por exemplo), não… gravou mesmo com um nome potencial mente incriminador: minha bênção. Aquilo enervou mana Lu de tal maneira que arrumou as ‘di kwatas’ dele na mesma hora. Assim, estão à esperado cama rada para ir pegar as suas coisas e dizer na cara da mana Lu o que, afinal de contas, aquela jovem tem que ela não tem.
Tio Cristo até calhou com boa esposa, ye ah; se fosse aquelas ‘trungungueiras’ que eu conheço (espero que isso não me arranje ‘babulo’ no lar), essas horas já estaria bem afamado no bairro que é ‘assado e cozido’ (cão de merda, para ser preciso), inclusive estaria entre as principais manchetes do Jornal e portais de notícias: “Homem sem cabeça troca sua mulher do sofrimento por uma jovem rabuda e mulata no ápice da glória”; “ mataku grande e pernas grossas fazem administrador do município de tal romper seu casamento de longos anos ”, etc, etc.
Portanto, boazinha que a esposa é e estando preocupada com a reputação do casal e dos filhos, não fez escândalo algum, simplesmente entregou tudo nas mãos de Deus. Talvez porque seja cristã devo ta e, por isso, acredita que a justiça divina, embora tarde, chega, diferente da justiça humana que, além de ‘tardar’, muitas vezes, não chega mesmo. Mas essa é outra conversa.
Por: JOAQUIM AUGUSTO ADOLFO
*Professor de Língua Portuguesa









