OPaís
Ouça Rádio+
Qua, 4 Mar 2026
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Jornal O País
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Ouça Rádio+
Jornal O País
Sem Resultados
Ver Todos Resultados

O dia que o mundo ficou vazio

Jornal OPaís por Jornal OPaís
4 de Março, 2026
Em Opinião

Não foi um colapso visível que anunciou o vazio. Não houve cidades em ruínas, nem céus rasgados por presságios, nem a interrupção do curso dos rios. A aparência do mundo manteve-se intacta: as avenidas continuaram congestionadas, os mercados cheios, as vozes sobrepostas nas esquinas físicas e digitais. No entanto, algo essencial havia sido subtraído. O que se perdeu naquele dia não foi matéria, mas medida; não foi estrutura, mas sentido.

Poderão também interessar-lhe...

A colisão de direitos na era digital: entre a liberdade de expressão e a salvaguarda da honra

Os sabores da infância

CARTA DO LEITOR: O bairro da Sonangol…

O mundo ficou vazio quando a consciência colectiva deixou de reconhecer o valor do rigor e passou a tratar a ignorância como um estado confortável e legítimo de permanência. Durante séculos, a humanidade compreendeu que não saber era condição provisória, nunca destino. A ignorância, quando admitida, tornava-se ponto de partida para a investigação.

O reconhecimento da própria limitação era virtude intelectual, pois abria caminho à dúvida, e a dúvida, por sua vez, alimentava o conhecimento. Contudo, na contemporaneidade, observa-se um deslocamento inquietante: “a ignorância já não se assume como lacuna a ser preenchida, mas como identidade a ser defendida”. O erro já não solicita correção, exige respeito.

A opinião, desprovida de fundamento, reivindica equivalência com o argumento cuidadosamente construído. Este fenômeno não se restringe ao indivíduo isolado. Ele manifesta-se como sintoma cultural. A esfera pública transformou-se em palco de reações imediatas, onde a velocidade substitui a reflexão e a visibilidade suplanta a validade. O tempo do pensamento, que exige leitura, confronto de ideias e verificação de fontes, é considerado excessivo numa era que premia o instantâneo. Assim, o mundo não se esvaziou de informações; ao contrário, tornouse saturado delas.

O vazio emergiu precisamente da incapacidade de discernir, de hierarquizar, de avaliar criticamente o que se consome e se reproduz. A normalização da ignorância revela-se, sobretudo, na inversão de valores. O estudo é frequentemente percebido como ostentação intelectual; a especialização, como suspeita; o aprofundamento, como perda de tempo. O improviso, por sua vez, é celebrado como autenticidade.

O especialista precisa justificar-se, enquanto o desinformado exibe convicção inabalável. A autoridade do argumento é substituída pela autoridade da popularidade. O número de seguidores passa a valer mais que a consistência das razões apresentadas. Aceitar o incomum poderia significar abertura ao novo, expansão de horizontes, enriquecimento cultural. No entanto, a aceitação indiscriminada dissolve critérios fundamentais.

A distinção entre correcto e incorrecto, entre evidência e suposição, entre facto e opinião, torna-se turva. Não se trata de negar a pluralidade de perspectivas, mas de reconhecer que nem todas possuem o mesmo grau de sustentação racional. Quando essa diferenciação desaparece, instala-se um relativismo que, sob a aparência de tolerância, fragiliza a própria possibilidade de diálogo. Questionar converte-se em afronta.

Discordar passa a ser interpretado como intolerância. A crítica, elemento essencial do progresso científico e filosófico, é vista como agressão pessoal. Nesse ambiente, o debate perde profundidade e transforma-se em disputa emocional. A racionalidade pública, que deveria sustentar decisões coletivas e orientar políticas, enfraquece-se diante do império da sensação e da retórica inflamada.

O mundo ficou vazio quando a sociedade começou a confundir liberdade com ausência de responsabilidade cognitiva. Liberdade intelectual não significa licença para afirmar qualquer coisa, mas compromisso com a busca honesta da verdade. Exige disposição para revisar crenças à luz de novas evidências, coragem para reconhecer equívocos e humildade para aprender.

Quando tais exigências são abandonadas, a liberdade degrada-se em arbitrariedade, e a autonomia converte-se em capricho. Do ponto de vista epistemológico, vive-se uma crise de autoridade do conhecimento. Nunca houve acesso tão amplo à informação, nem tantos meios de produção e difusão de conteúdo. Contudo, a democratização do acesso não foi acompanhada, na mesma proporção, pela democratização do pensamento crítico.

Informação sem método não é conhecimento; é apenas acúmulo disperso de dados. E dados, quando descontextualizados, podem sustentar quase qualquer narrativa. A educação, nesse cenário, enfrenta um desafio profundo. Se, por um lado, permanece como instrumento privilegiado de emancipação, por outro, perde centralidade simbólica numa cultura que valoriza resultados imediatos e respostas simples.

O processo formativo, que requer disciplina, esforço e continuidade, parece incompatível com a lógica da gratificação instantânea. Assim, o mundo esvaziase de profundidade porque perde o hábito da perseverança intelectual. Há também uma dimensão ética nesse esvaziamento. A aceitação do incorrecto não é neutra, ela produz consequências concretas. Decisões baseadas em desinformação afetam políticas públicas, relações sociais e escolhas individuais.

A normalização da ignorância fragiliza instituições e compromete o tecido social. Quando a verdade torna-se irrelevante, a confiança coletiva se dissolve. E sem confiança, não há coesão; sem coesão, não há projeto comum. Paradoxalmente, o vazio não se manifesta como silêncio, mas como excesso, sim excesso de vozes, de opiniões, de julgamentos precipitados. O ruído constante impede a escuta atenta.

A superficialidade não se impõe pela ausência de conteúdo, mas pela sua fragmentação incessante. Vive-se numa sucessão de estímulos que raramente se convertem em reflexão. A profundidade exige pausa, e a pausa tornou-se rara.

O vazio do mundo contemporâneo não é irreversível. Ele resulta de escolhas culturais, de prioridades estabelecidas, de valores cultivados ou negligenciados. Reverter esse quadro implica revalorizar a educação, fortalecer a ética do conhecimento, promover o debate fundamentado e cultivar a humildade intelectual. Implica, sobretudo, resgatar o sentido da responsabilidade diante da palavra pronunciada e da informação compartilhada.

Porque um mundo verdadeiramente vazio não é aquele que carece de respostas, mas aquele que perdeu a disposição de perguntar. A vitalidade de uma sociedade mede-se pela qualidade de suas inquietações. Onde há questionamento sério, há movimento, onde há movimento, há possibilidade de transformação.

Por: REIS ADRIANO SIMÃO

Jornal OPaís

Jornal OPaís

Recomendado Para Si

A colisão de direitos na era digital: entre a liberdade de expressão e a salvaguarda da honra

por Jornal OPaís
4 de Março, 2026

No actual estágio de desenvolvimento da nossa sociedade digital, a tensão entre a liberdade de expressão e a protecção da...

Ler maisDetails

Os sabores da infância

por Jornal OPaís
4 de Março, 2026

Recentemente, começou a circular nas redes sociais um vídeo curioso. Brasileiros a testarem aquilo que chamavam de “sobremesa angolana”. Para...

Ler maisDetails

CARTA DO LEITOR: O bairro da Sonangol…

por Jornal OPaís
4 de Março, 2026

Caro coordenador do Jornal OPAÍS, votos de uma boa Quarta-feira. O bairro da Sonangol, em Luanda, é muitas vezes citado...

Ler maisDetails

É de hoje… Ecos de um ano judicial

por Dani Costa
4 de Março, 2026

Apouco mais de um ano das próximas Eleições Gerais no país, o Presidente da República, João Lourenço, voltou a abordar...

Ler maisDetails

Marido mata mulher por ciúmes no Uíge

4 de Março, 2026

Escuteiros esperam do Papa mensagem de conforto para os vulneráveis

4 de Março, 2026

Governo prepara espaço para acolher missa papal na Lunda-Sul

4 de Março, 2026

A colisão de direitos na era digital: entre a liberdade de expressão e a salvaguarda da honra

4 de Março, 2026
Facebook Twitter Youtube Whatsapp Instagram

Para Sí

  • Radio Maís
  • OPaís
  • Media Nova
  • Negócios Em Exame
  • Chiola
  • Agência Media Nova
  • Contacto

Categorias

  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Publicações
  • Vídeos

Condições

  • Política de Privacidade
  • Política de Cookies
  • Termos & Condições
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Ouça Rádio+

© 2024 O País - Tem tudo. Por Grupo Medianova.

Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você está dando consentimento para a utilização de cookies. Visite nossa Política de Privacidade e Cookies.