Março é mulher. Março é memória, resistência e compromisso. É o mês em que revisitamos a coragem das que tombaram pela Independência e das que permaneceram firmes na construção da Nação. É o tempo de honrar as que lutaram com bravura e as que continuam, diariamente, a lutar por dignidade, espaço e reconhecimento. Março é nosso.Na história da nossa Pátria, há nomes que ecoam como hinos de coragem.
Mulheres que trocaram o conforto do lar pelo som da mata, pela clandestinidade e pelo risco permanente. Entre elas, destacou-se Languidila, nome de guerra de Deolinda Rodrigues, símbolo de entrega total à causa nacional. A sua vida permanece como testemunho de que a liberdade tem rosto feminino. Recordamos também Engrácia, nome de guerra de Irene Cohen, mulher determinada e estratega, que enfrentou o colonialismo com inteligência e firmeza.
Teresa Afonso e Lucrécia Paim , também fazem parte do elenco honroso. A sua trajectória demonstra que a luta de libertação não foi apenas masculina. Foi, igualmente, sustentada por mulheres que ousaram desafiar o medo e o silêncio. E não podemos esquecer Ruth Neto, Maria Mambo Café e Luzia Inglês Van-Dúnem, a nossa” Tia Inga”, esta última, mobilizou, organizou e inspirou gerações. Foi pioneira na afirmação da mulher no seio da luta armada e mostrou que é possível estar na linha da frente sem perder a sensibilidade social. A sua liderança abriu caminhos para tantas outras.
Essas mulheres não pediram licença à História, escreveram-na com o próprio sacrifício. Lutaram não por vaidade, mas por justiça. Não por aplausos, mas por liberdade. Foram bravas, leais e comprometidas com o sonho de uma Angola soberana. A elas devemos respeito, continuidade e coerência.Foi neste contexto que nasceu, em 1962, a Organização da Mulher Angolana, no seio do MPLA, com a missão de mobilizar, formar e integrar as mulheres na luta de libertação nacional.
A OMA surgiu como instrumento de emancipação feminina e de afirmação política, dando voz e protagonismo à mulher angolana. Das primeiras líderes às actuais dirigentes, a OMA percorreu um caminho exigente. Enfrentou a guerra, o luto, a reconstrução e os desafios da consolidação democrática. Soube adaptar-se às transformações sociais, mantendo o compromisso com a promoção dos direitos da mulher e com a formação de quadros capazes de responder às exigências do presente.
No recente congresso, o Presidente João Lourenço trouxe uma mensagem que merece reflexão. Reconheceu o papel central da mulher no desenvolvimento económico e social do País e sublinhou a necessidade de mais capacitação, mais participação e mais oportunidades. As suas palavras apontaram para a urgência de transformar reconhecimento em políticas concretas.
Não há desenvolvimento sustentável sem mulheres empoderadas. Não há crescimento económico sólido quando metade da população enfrenta barreiras estruturais. A inclusão feminina não é concessão, é estratégia nacional. E cada discurso só ganha sentido quando se traduz em acção efectiva. É tempo de fortalecer a união entre mulheres. Menos intrigas, menos competição destrutiva, menos rivalidades alimentadas por inseguranças. A mulher não pode ser obstáculo à ascensão da própria mulher. Solidariedade é maturidade política e social.
Às que ocupam lugares de decisão cabe responsabilidade acrescida. Menos arrogância e mais exemplo. Liderar é servir, orientar, abrir portas. Subir na vida não pode significar puxar o tapete de outra, deve significar construir escadas mais largas para que muitas possam subir. Quem chegou primeiro tem o dever moral de estender a mão às que vêm atrás. Mentoria, partilha de conhecimento e criação de oportunidades concretas são atitudes que fortalecem a classe feminina. O poder que exclui enfraquece, o poder que inclui transforma. Precisamos de mais emprego para as mulheres, especialmente para as jovens.
Precisamos de mais cursos profissionais alinhados às necessidades do mercado e de maior acesso ao crédito para pequenos e médios negócios liderados por mulheres. A autonomia económica é condição essencial para a liberdade. É igualmente urgente investir no ensino de adultas. A alfabetização feminina continua a ser desafio em muitas comunidades. Educação não é apenas instrução, é instrumento de emancipação.
Mulher instruída é família fortalecida e sociedade mais consciente. Precisamos, ainda, de menos violência. Violência doméstica, psicológica e económica não podem ser toleradas. Nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa ou no local de trabalho. A dignidade feminina é inegociável. Precisamos de menos fofoca e menos intriga que corroem ambientes e destroem reputações. A verdadeira elegância está na postura ética e no carácter.
O brilho da mulher angolana deve ser medido pela competência, pela integridade e pela capacidade de construir. Sejamos rosas sem espinhos desnecessários. Que exalemos charme e glamour, sim, mas também firmeza, inteligência e visão estratégica. A delicadeza não exclui força, a elegância não elimina determinação. Março é mulher porque a mulher é origem, cuidado e criação. É ventre que gera, é mente que pensa, é mão que constrói.
Uma Nação que investe nas suas mulheres investe no seu futuro. Honremos Langidila, Engrácia, Inga e tantas outras não apenas com palavras, mas com atitudes coerentes. Que as políticas públicas sejam inclusivas, que as lideranças sejam éticas e que o compromisso colectivo prevaleça sobre interesses pessoais. Que a Organização da Mulher Angolana continue a ser espaço para todas, jovens e adultas, urbanas e rurais, académicas e camponesas.
Um espaço de crescimento, formação e verdadeira irmandade, onde cada mulher encontre apoio para florescer. Março é mulher. Março é nosso. Que sejamos dignas da história que herdámos e responsáveis pelo futuro que estamos a construir. Que floresçamos juntas, com união, solidariedade e propósito, para que Angola floresça connosco.
Por: YARA SIMÃO








