A consciência fonológica desenvolvida na língua materna pode constituir uma base cognitiva sólida para a aprendizagem da leitura numa segunda língua. Estudos realizados em diferentes contextos bilingues demonstram que crianças alfabetizadas com apoio da língua materna apresentam, frequentemente, melhor desempenho em leitura e escrita na língua segunda (August & Shanahan, 2006).
No contexto angolano, esta transferência permanece pouco explorada de forma sistemática. A ausência de instrumentos adaptados às línguas bantu, a escassez de materiais pedagógicos bilingues e a formação limitada dos professores em educação linguística bilingue constituem obstáculos estruturais à operacionalização desta transferência. A negligência da língua materna no processo de alfabetização tem consequências que ultrapassam o domínio estritamente linguístico.
Está associada a maiores taxas de insucesso escolar, desmotivação, abandono precoce e reforço de desigualdades sociais (UNESCO, 2003; 2016). Em Angola, onde uma parte significativa das crianças entra na escola sem domínio funcional do Português, alfabetizar exclusivamente nesta língua, sem valorização sistemática da consciência fonológica da língua materna, constitui um factor de exclusão pedagógica silenciosa.
Tal prática contribui para a reprodução de desigualdades e para a marginalização simbólica das línguas nacionais. Uma política educativa verdadeiramente inclusiva exige o reconhecimento científico e institucional do papel das línguas bantu no desenvolvimento cognitivo e académico das crianças.
A integração pedagógica da consciência fonológica em línguas bantu pode contribuir para: melhorar os resultados em leitura e escrita em Português; reduzir o insucesso escolar; reforçar a auto-estima linguística e cultural dos alunos;promover uma educação mais equitativa e culturalmente sensível.
O impacto da consciência fonológica em línguas bantu no desenvolvimento da literacia em Português constitui uma questão central para o futuro da educação em Angola. Longe de ser um tema meramente técnico, trata-se de um problema científico, pedagógico, social e político, com profundas implicações para a justiça educativa, a coesão social e o desenvolvimento humano.
A evidência científica internacional demonstra, de forma inequívoca, que a consciência fonológica é um factor determinante no sucesso da alfabetização. No contexto angolano, esta evidência deve ser articulada com o reconhecimento das línguas bantu como línguas cognitivamente estruturantes da infância. Ignorar este facto é perpetuar modelos educativos desajustados à realidade sociolinguística do país.
Valorizar a consciência fonológica nas línguas bantu, pelo contrário, é investir numa educação mais eficaz, mais justa e mais humana. Este artigo defende, assim, a necessidade urgente de políticas públicas, formação docente, produção de materiais didácticos e investigação científica que integrem, de forma sistemática, as línguas bantu no processo de alfabetização.
Trata-se não apenas de uma exigência académica, mas de um imperativo ético e social, em nome do direito das crianças angolanas a uma educação linguística que respeite a sua identidade, potencie as suas capacidades cognitivas e lhes abra, verdadeiramente, as portas do futuro.
Por: FERNANDO CHILUMBO








