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O impacto da consciência fonológica em línguas bantu no desenvolvimento da literacia em Português no ensino primário angolano (I)

Jornal OPaís por Jornal OPaís
24 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Angola é um país caracterizado por uma notável diversidade linguística, no seio da qual as línguas bantu desempenham um papel central na construção identitária, cultural e cognitiva das comunidades. Para a maioria das crianças angolanas, línguas como o Umbundu, o Kimbundu, o Kikongo, entre outras, constituem a primeira língua de socialização e de acesso ao mundo simbólico.

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Todavia, o processo formal de alfabetização ocorre, na sua esmagadora maioria, em Português, língua oficial e principal veículo de escolarização. Esta realidade levanta questões profundas de natureza linguística, pedagógica e política.

Entre elas, destaca-se a problemática da consciência fonológica, entendida como a capacidade metalinguística de reflectir e manipular os sons da fala (sílabas, rimas, fonemas), competência amplamente reconhecida como um dos principais preditores do sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita (Gombert, 1992; Snow, Burns & Griffin, 1998).

Apesar da vasta literatura internacional sobre a relação entre consciência fonológica e literacia, os estudos realizados em contextos africanos, e em particular no contexto angolano, permanecem escassos, fragmentados e, muitas vezes, excessivamente descritivos. Raramente se analisa, com profundidade empírica e teórica, a forma como a consciência fonológica desenvolvida nas línguas bantu pode transferir-se, positiva ou negativamente, para a aprendizagem da leitura e da escrita em Português.

A consciência fonológica é amplamente reconhecida como uma competência central no processo de alfabetização. Gombert (1992) define-a como a capacidade de o sujeito reflectir conscientemente sobre a estrutura sonora da língua, distinguindo e manipulando unidades como sílabas, rimas e fonemas.

Estudos clássicos em psicolinguística e educação demonstram que crianças com níveis elevados de consciência fonológica tendem a apresentar melhor desempenho na leitura e na escrita (Ehri et al., 2001; Snow, Burns & Griffin, 1998). Segundo Ehri (2005), a aprendizagem do sistema alfabético exige que a criança compreenda a relação sistemática entre grafemas e fonemas. Tal compreensão depende, em larga medida, da capacidade de segmentar a fala em unidades sonoras discretas.

Assim, a consciência fonológica constitui um dos pilares cognitivos da alfabetização. Estas conclusões são confirmadas em diversos contextos linguísticos e culturais, reforçando o carácter universal do papel da consciência fonológica no desenvolvimento da literacia. Contudo, a maioria destes estudos foi realizada em contextos monolingues ou em contextos bilingues envolvendo línguas indo-europeias, deixando em segundo plano realidades linguísticas como as das línguas bantu.

As línguas bantu apresentam características fonológicas específicas, tais como sistemas silábicos predominantemente abertos (CV), presença de tons, padrões rítmicos particulares e inventários fonémicos distintos dos do Português (Nurse & Philippson, 2003). Estas características moldam a forma como a criança desenvolve a percepção e a organização dos sons da fala. Investigação em linguística africana e psicolinguística sugere que a estrutura fonológica da língua materna influencia o tipo de consciência fonológica que a criança desenvolve prioritariamente.

Em línguas com forte regularidade silábica, como muitas línguas bantu, tende a desenvolver-se, de forma precoce, uma elevada consciência silábica, enquanto a consciência fonémica pode emergir de forma mais tardia ou menos espontânea (Ziegler & Goswami, 2005).

Este facto tem implicações directas para a alfabetização em Português, uma língua com um sistema ortográfico relativamente mais opaco e com maior exigência ao nível da segmentação fonémica. Quando a escola ignora esta realidade, corre-se o risco de interpretar dificuldades cognitivas como défices individuais, quando, na verdade, se trata de desajustes entre sistemas linguísticos.

A teoria da interdependência linguística de Cummins (2000) sustenta que competências cognitivas e metalinguísticas desenvolvidas numa língua podem transferir-se para outra língua, desde que existam condições pedagógicas favoráveis. Esta perspectiva é fundamental para compreender o papel potencial das línguas bantu no desenvolvimento da literacia em Português.

Por: FERNANDO CHILUMBO

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