O desporto deixou há muito de ser apenas competição. No século XXI, tornou-se uma das ferramentas mais eficazes de projecção internacional, construção de reputação e reforço de relações entre Estados. Para África, que continua a disputar espaço e influência num mundo cada vez mais competitivo, a diplomacia desportiva surge como um instrumento estratégico com potencial real para aproximar povos, consolidar alianças e fortalecer a imagem do continente.
Ao contrário da diplomacia tradicional, que se move entre protocolos e formalismos, o desporto opera onde a política muitas vezes falha: na emoção colectiva, no sentimento de pertença e no orgulho nacional. Um torneio regional pode criar mais aproximação entre países do que anos de discursos sobre integração. Um jogo internacional bem organizado pode gerar mais confiança do que dezenas de reuniões bilaterais.
Em Angola, existe uma expressão popular que diz que “o Kwanza não corre sozinho”. A força do rio resulta dos afluentes que o alimentam ao longo do percurso. O mesmo se aplica à África: nenhum País cresce isolado. A inte- gração continental exige pontos de contacto reais e frequentes — e o desporto tem sido uma das formas mais eficazes de criar esses encontros. A União Africana fala repetidamente de unidade, mas a verdade é simples: integração não se decreta, constrói-se.
E o desporto é, por natureza, uma plataforma de convivência. A juventude africana pode não conhecer tratados ou estratégias regionais, mas reconhece símbolos desportivos, acompanha campeonatos e identifica-se com atletas que representam o continente no mundo. É nesse terreno que se forma, de maneira silenciosa, a identidade colectiva. Além disso, o desporto tornou-se um mecanismo poderoso de reputação nacional.
Países que organizam competições internacionais com eficiência e qualidade projectam estabilidade, capacidade logística e credibilidade institucional. Numa era em que reputação é moeda de negociação global, receber eventos desportivos significa também atrair turismo, investimento e interesse mediático. Não se trata apenas de medalhas, mas de posicionamento estratégico. Angola tem demonstrado, nos últimos anos, sinais de evolução nesse campo, ao acolher competições regionais e internacionais, reforçando o seu papel como actor relevante na África Austral.
Mas o desafio continental continua a ser o mesmo: transformar iniciativas pontuais em estratégia permanente. Há quem diga, nas nossas comunidades, que “a panela não ferve com um só pau”. Esta analogia resume bem a realidade africana: nenhum País conseguirá elevar a sua influência internacional sem cooperação, coordenação e visão comum. O desporto oferece esse espaço de convergência, criando pla- taformas onde governos, federações, patrocinadores e juventude se encontram e colaboram.
Outro aspecto decisivo é a dimensão económica. A diplomacia desportiva não é apenas simbólica; é também uma via de crescimento. Grandes eventos movimentam sectores como hotelaria, transportes, publicidade, segurança, telecomunicações e indústrias criativas. Além disso, atraem patrocinadores e geram oportunidades para pequenas e médias empresas. Quando bem gerido, o desporto converte-se num activo económico e não apenas numa despesa pública.
Porém, a maior fragilidade do desporto africano continua a ser a ausência de modelos sustentáveis. Muitos países investem em infra-estruturas, mas negligenciam a gestão profissional e a manutenção. Constroem estádios, mas não constroem sistemas. Realizam eventos, mas não consolidam continuidade.
Sem estratégia, o desporto transforma-se em espectáculo momentâneo, sem impacto duradouro. Em Angola, o povo costuma dizer que “quem não amarra a canoa, perde-a na corrente”. O desporto africano está exactamente neste ponto: o potencial existe, mas sem governação, transparência e planeamento, perde-se na corrente do improviso. O futuro africano será disputado também no campo desportivo.
Num mundo multipolar, o poder mede-se cada vez mais pela capacidade de influência, mobilização simbólica e construção de narrativas. E o desporto é uma das principais plataformas de narrativa contemporânea. África precisa, por isso, de tratar o desporto como política pública séria e instrumento diplomático estratégico. Precisa de investir em eventos, mas também em quadros técnicos, modelos de gestão, credibilidade federativa e parcerias internacionais. Porque um País que domina o desporto não domina apenas jogos: domina percepção, reputação e influência. E no século XXI, quem domina influência… domina o futuro.
POR: EDGAR LEANDRO








