Todos os dias, antes mesmo de a cidade acordar por completo, há mulheres que já estão em movimento, carregando sacolas, listas de compras e uma determinação silenciosa. Não vestem fardas nem têm contratos formais, mas sustentam famílias inteiras através de um trabalho que nasce nos grupos de WhatsApp e se mantém na persistência diária. Cada mensagem enviada, cada pedido recebido, transforma-se numa responsabilidade que não pode ser negligenciada.
São mulheres que percorrem os bairros com atenção, visitam mercados e lojas, e procuram produtos que respondam às necessidades dos clientes, muitas vezes chamadas madames que não saem de casa por vários motivos . Este serviço informal exige planeamento, organização e capacidade de negociação, e embora seja pouco valorizado, é essencial para a sobrevivência de quem depende dele.
O pagamento é quase sempre baixo, mas a importância do que realizam é incalculável. Cada moeda representa comida no prato, gás para cozinhar, pequenas despesas da casa e continuidade da vida familiar. O trabalho não se limita à entrega de compras, envolve cálculo de preços, gestão de tempo e esforço físico contínuo, sem qualquer garantia de reconhecimento formal. Muitas vezes, estas mulheres enfrentam desrespeito e desvalorização por parte de algumas clientes, que confundem prestação de serviço com favor pessoal.
São situações em que a dignidade do trabalho é ignorada, enquanto as trabalhadoras assumem res- ponsabilidades que vão muito além da simples entrega de produtos, garantindo que as famílias tenham condições mínimas de sobrevivência diária. Apesar de todas as dificuldades, persistem. Levantam-se cedo, enfrentam o sol e a chuva, caminham longas distâncias e entram em becos estreitos à procura de preços acessíveis, negociam cada valor e avaliam cada escolha com cuidado.
Cada decisão é estratégica, porque o esforço diário deve resultar em pequenas margens que permitem sustentar os filhos e manter a casa funcional. O WhatsApp tornou-se uma ferramenta indispensável para o trabalho. Ali se organizam listas de compras, combinam horários e preços, e mantêm comunicação constante com clientes e fornecedores. Esta rede de contactos, embora informal, exige responsabilidade e rigor, já que qualquer erro pode comprometer a confiança construída ao longo do tempo e colocar em risco o rendimento do dia.
O corpo cansa, mas a mente mantém-se firme. Não há pausas porque as panelas não entram de férias, a fome não tira licença e as necessidades domésticas não esperam. Cada dia é um desafio, cada deslocação uma tarefa que requer disciplina, atenção e coragem, mas também determinação para garantir a sobrevivência familiar. A cidade muitas vezes passa despercebida por estas mulheres, sem reconhecer o valor do que realizam.
Não estão nas estatísticas oficiais, raramente são mencionadas em relatórios ou discursos, mas cumprem um papel fundamental no equilíbrio social e económico de bairros inteiros, sustentando famílias que dependem da sua dedicação diária. O trabalho informal feminino continua a ser pouco discutido nas políticas públicas, deixando estas mulheres sem protecção legal, segurança ou reconheci- mento institucional.
A ausência de regulamentação expõe-nas a riscos constantes, tornando o dia a dia mais difícil e exigindo uma força extraordinária para manterem o rendimento necessário ao sustento dos seus lares. Reconhecer a importância destas mulheres não significa romantizar a informalidade ou a pobreza. É, antes, admitir que existe um fenómeno social real, apoiado no esforço diário de mulheres que mantêm a vida a funcionar. A sua organização, estratégia e resiliência merecem atenção, políticas públicas adequadas e oportunidades de apoio concreto.
Enquanto não houver regulamentação ou políticas de inclusão, estas mulheres continuarão a cumprir jornadas longas, do nascer ao pôr do sol, garantindo que as panelas permaneçam acesas e que a alimentação familiar seja assegurada. A sua determinação é silenciosa, mas tem impacto direto na vida de milhares de pessoas. Muitas destas trabalhadoras assumem também o papel de pesquisadoras e estrategas. Conhecem as melhores lojas, os preços mais acessíveis e os produtos de melhor qualidade.
Planeiam rotas eficientes, analisam mercados e ajustam decisões de acordo com necessidades emergentes, demonstrando um conhecimento prático que poucas vezes é reconhecido fora do contexto doméstico. O contacto diário com clientes exige paciência, responsabilidade e profissionalismo. Um pequeno erro pode colocar em risco a reputação e a confiança construída com cada cliente, e essa reputação é fundamental para que o trabalho continue a ser realizado.
Por isso, cada entrega é cuidadosamente pensada e realizada com atenção máxima. O impacto social do seu trabalho é significativo. Sustentam crianças na escola, alimentam idosos e garantem que os lares funcionem. São pilares invisíveis de uma economia urbana que poucos reconhecem, mas que sem elas não se manteria. A importância da sua presença vai muito além daquilo que se vê.
A falta de regulamentação legal agrava a vulnerabilidade des- tas mulheres, expondo-as a exploração, instabilidade e riscos sociais. Trabalhar sem direitos formais é uma constante, mas a coragem e a disciplina que demonstram todos os dias mantêm a economia local a funcionar de forma silenciosa e eficaz. A actividade destas mulheres demonstra criatividade e resiliência. Mesmo com poucos recursos, encontram soluções para desafios complexos, transformando problemas em oportunidades de sustento.
A sua capacidade de adaptação é um exemplo de empreendedorismo popular, inteligente e estratégico. O fenómeno evidencia desigualdades de género no sector informal. As mulheres assumem car- gas duplas, entre a rua e a casa, entre o sustento da família e a manutenção do lar. Este trabalho, invisível e pouco valorizado, é essencial para que muitas famílias sobrevivam e prosperem. Estas mulheres representam empreendedorismo diário. Não possuem reconhecimento formal, mas exercem funções que exigem organização, inteligên- cia, estratégia e disciplina. Cada passo, cada compra, cada decisão é cuidadosamente calculada para garantir rendimento e so- brevivência familiar. Não é apenas trabalho, é mesmo gestão, estratégia e dedicação contínua.
O seu esforço mantém a vida doméstica funcional e garante que famílias completas te- nham acesso a alimentação, cui- dados básicos e estabilidade mínima, mesmo em condições de extrema dificuldade. Enquanto houver panela no fogo e filhos à espera do jantar, estas mulheres continuarão a cumprir a sua rotina. Mantêm bairros e comunidades em funcionamento e fazem-no silenciosamente, sem holofotes, sem aplausos, mas com determinação inabalável.
Finalmente, reconhecer estas mulheres é um acto de justiça social. Valorizar o trabalho informal feminino significa fortalecer famílias, comunidades e a economia local. Onde elas passam, a vida resiste e a dignidade permanece intacta, mesmo que o mundo raramente note.
POR: YARA SIMÃO









