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A palavra do morto – Vidas de Ninguém (X)

Domingos Bento por Domingos Bento
6 de Fevereiro, 2026
Em Destaque, Opinião, Última Hora

O cesto de roupa da Manana, a viúva, já estava arrumado no quintal e aguardava-se, entretanto, pela última palavra do tio do morto, que estava com as chaves do portão principal nas mãos, a ordenar que se retirasse tudo dela, porque a casa seria vendida e o dinheiro repartido entre a família do falecido.

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Mas«, compadre, ainda nem choramos bem o nosso morto, tampouco o corpo dele esfriou na terra, já estamos a discutir essas coisas de bens materiais?», questionou a Mandona, tia da Manana.

«A mulher, na nossa família, é como uma vassoura. Só vem varrer. Depois do marido morrer, ela não pode levar absolutamente nada. Isso é assim desde os tempos dos nossos pais», afirmou o Kota Quintino, 79 anos de idade, tio do morto, enquanto olhava atentamente para a viúva e os filhos, encostados no sofá velho que ficava no canto da sala, que tinha o chão bruto, paredes sem rebocos e instalações eléctricas improvisadas, onde uma ponta dos fios descarnados foi ligada ao aparelho de som que tocava música durante os seis dias de óbito.

«Compadre, mede as palavras. Esse tempo, as coisas mudaram muito. Vamos nos entregar na igreja. Mesmo você também não gostaria de ver a tua filha nessa situação», rebateu a Mandona, enquanto endireitava o pano que desapegava da cintura, na medida em que falava e fazia gestos.

«É por isso que os mais velhos diziam que manter é perguntar primeiro. Nesse tempo mesmo da modernidade, a família do marido ainda recebe a casa na mulher. Isso é muita brincadeira», atirou a Yembinha, que estava sentada na esteira, com a tia Kendinha ao lado da porta do quarto, tendo acrescentado ainda que «também estão só a fazer isso na burra da Manana. Eu, na minha vez, vou parar até na esquadra».

«Oh, menina Yembinha, aviso-te já: primeiro, essa conversa não é para a tua idade. Segundo, é que vocês podem ir queixar-se onde quiserem, mas essa é a nossa tradição. E se ela, a Manana, não sair daqui a bem, vai sair a feitiço. Cuidado, olha que nós somos das Terras Altas», ameaçou o Kota Quintino, que prontamente foi respondido novamente pela Yembinha.

«Vocês, como já estão habituados a matar, tentem só na minha tia… vão ver o diabo a assar sardinha. Nós somos calmas, mas também somos outras complicadas, seus bruxos de uma figa».

«Menina Yembinha, alguma vez nos viste a matar alguém? Olha, é bom respeitar as pessoas. Eu tenho idade para ser teu avô. Não sei o que está a vos doer. Ele, o falecido, sabia da nossa tradição. Homem, quando morre, a mulher deve abandonar a casa. Ponto final. Não tem mais conversa», vingou o tio Quintino, que, antes de voltar a sentar-se no banco de madeira, puxou do bolso um lenço branco e, de seguida, limpou o calor da testa e restos de saliva pegajosa que ficavam no canto da boca.

«Menina Yembinha e mano Quintino, vamos parar com essas coisas de discutir. Vê só: até lá fora, os vizinhos todos que vieram nos fazer companhia, durante o óbito, estão a nos olhar como se fôssemos matumbos. Conversa entre família é para resolver devagar», apelou a Mana Laura, irmã mais velha de Manana, que estava sentada ao lado da porta principal, com um lenço branco na cabeça, vestido verde e uma sandália de borracha preta, que gostava muito de usar por causa do reumatismo que a apoquentava há mais de vinte anos.

«É verdade, cunhada Laura! Temos de pensar que o morto foi, mas deixou filhos e esposa. Se vamos resolver o problema, tem de ser mesmo devagar, porque, se formos aqui a gritar tanto e a ofender, isso não vai resolver o problema que estamos com ele», defendeu o Tizecadas, cunhado da Manana.

Apesar dos apelos, o tio Quintino mostrava-se cada vez mais resistente no seu posicionamento e continuava na ideia de expulsar a viúva, que estava trajada de roupas pretas, com lágrimas a escorrer pelo rosto, enquanto limpava com uma camisola castanha do falecido marido.

«Se vocês começarem a me aquecer a cabeça, vou pegar na minha família e vamos embora. Depois, o que vier a acontecer com a vossa filha não vale a pena dizerem que somos bruxos, porque quem avisa amigo é», avisou o tio Quintino.

Diante da tristeza, estava, assim, todo o cenário criado para a família do morto expulsar a viúva da casa onde viveu longos e felizes anos com o seu falecido marido. Mas, antes, o Sr. Padre, que momentos antes tivera realizado a missa de corpo presente, foi solicitado a regressar imediatamente à casa do óbito.

Era com o Padre que o falecido privava os seus segredos e também com ele deixaria o seu último testamento.

Ao entrar, o Padre pediu um minuto aos familiares reunidos naquela apertada sala, afogada de calor, para apresentar o referido testamento.

Na carta, escrita numa folha branca A4, três meses antes de morrer, lida em voz alta pelo Padre, o falecido descrevia todo o amor que sentia pela Manana, a mulher que conheceu ainda muito jovem, nas matas de Chitembo.

Nas entrelinhas, o Padre recordou o primeiro beijo do casal, que foi debaixo de fortes chuvas que caíam sobre as densas matas de Chitembo, num período em que a guerra assolava a região. Mas a coragem venceu, e o amor do casal levou-os a escalar Luanda, em 1981, com os cinco filhos, para construir uma vida nova.

Antes da construção da casa, o casal viveu de renda durante anos, em vários bairros. Eram casas de chapas, de madeira, de pau-a-pique e até tendas. Mas a felicidade surgiu quando, em 2002, o casal juntou dinheiro e resolveu construir a humilde casa, apesar de o marido não ter terminado as obras devido à degradação da sua saúde.

Fruto de todo esse sacrifício, junto da sua esposa, na carta, o malogrado atestou que, quando morresse, seriam a Manana e os filhos os únicos e legítimos herdeiros de todos os bens que ele trabalhou durante anos para conquistar.

Escreveu também que o seu atestado era de cumprimento obrigatório e que quem assim o contrariasse devia segui-lo debaixo do túmulo.

«Por isso, amados e amadas irmãs, vamos seguir e cumprir a última palavra do morto. Se a vontade dele foi a de deixar a casa para a sua esposa, nós só temos de cumprir», concluiu o Sr. Padre, depois de proceder à leitura do testamento do morto.

De repente, no meio daquele silêncio, um grito em voz alta agitou a casa toda. Era a Manana, que desmaiara ao lembrar-se do seu amado marido, cuja fotografia estava estampada num quadro, ladeado de velas e flores, na mesa de plástico coberta com um pano branco, colocada no centro da sala.

Por; Domingos Bento

Domingos Bento

Domingos Bento

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