Pontos de inflexão na história de um país não são meras datas no calendário; são marcos políticos que estruturam identidades colectivas e orientam trajectórias sociais, culturais e institucionais. O 4 de Fevereiro, que em Angola é reconhecido como o início da luta armada de libertação nacional em 1961, deve ser compreendido nes- ta perspectiva.
O 4 de Fevereiro não é um simples evento entre outros no longo processo de resistência angolana contra o colonialismo português. Reduzi-lo a isso é empobrecer o seu significado e, mais grave ainda, fragilizar a arquitectura simbólica que sustenta a ideia de Angola enquanto comunidade política.
Os povos não se organizam apenas por continuidade biológica ou territorial; organizam-se por narrativas partilhadas, por referências comuns e por marcos que delimitam um “antes” e um “depois”. O professor Alberto Colino Cafussa, no seu livro “Angola, Poder, Ameaças e Identidade”, dános bases sólidas para entender a centralidade do 4 de Fevereiro enquanto marco fundador. Ao contrário de leituras essencialistas, o professor Cafussa é claro ao afirmar que a nação angolana não emerge como dado natural, étnico ou cultural pré-existente, mas como resultado de uma luta histórica organizada e de uma opção consciente de construção do Estado.
A nação, neste sentido, não antecede o poder político. Ela é consolidada por ele. Esta leitura aproxima-se da formulação clássica de Benedict Anderson sobre a nação como comunidade política imaginada. Imaginada não porque seja fictícia, mas porque é construída a partir de referências comuns que permitem a indivíduos que nunca se conhecerão pessoalmente reconhecerem-se como parte de um mes- mo destino colectivo. O 4 de Fevereiro funciona como uma destas referências estruturantes.
Ele não representa o início da resistência angolana contra o colonialismo, mas o momento em que essa resistência transforma-se em projecto político nacional, capaz de produzir sentido, continuidade e identidade. Para Pierre Nora, os lugares de memória surgem quando a me- mória viva deixa de ser suficiente para garantir coesão. Angola, marcada por diversidade étnica, regional e linguística, necessitou, e continua a necessitar, de marcos que organizem a memória colectiva. O 4 de Fevereiro cumpre es- sa função.
Não substitui a comple- xidade da história, mas impede a sua dissolução em narrativas fragmentadas e concorrentes. Eric Hobsbawm defende que muitas das tradições nacionais modernas são tradições inventadas no sentido político do termo, na medida em que, práticas e símbolos institucionalizados para garantir continuidade histórica, estabilidade e previsibilidade. Longe de constituírem manipulações arbitrárias, essas tradições são mecanismos de sobrevivência do Estado.
O professor Cafussa converge com esta leitura ao sublinhar que, em contextos africanos pós-coloniais, a fragilização da identidade nacional abre espaço à fragmentação, à instrumentalização externa e à instabilidade crónica. É neste quadro que o pensamento de Agostinho Neto deve ser cor- rectamente interpretado.
Quando Neto proclama “um só povo, uma só nação”, não descreve a Angola tal como ela empiricamente existia; Neto formula um ideal político normativo. A nação, para Neto, é um horizonte a construir, não uma herança automática. A leitura do professor Cafussa é particularmente relevante no contexto actual, em que alguns discursos, por populismo ou superficialidade analítica, procuram reduzir o 4 de Fevereiro a uma “data partidária”.
Esta postura não constitui um ataque ao MPLA enquanto actor histórico; representa, sobretudo, uma tentativa de deslegitimação de um dos pilares identitários da nação angolana. Como o professor Cafussa alerta, a erosão dos marcos nacionais não produz pluralismo saudável, mas vazio identitário, e este vazio tende a ser rapidamente ocupado por narrativas simplificadoras, frequentemente prejudiciais à coesão do Estado.
Na Nigéria, por exemplo, a forte primazia de identidades subna- cionais e étnicas tem sido asso- ciada a desafios de unidade polí- tica e estabilidade, com dezenas de grupos que se articulam mais em termos regionais outribais do que nacionais. Em estados como a República Democrática do Congo (RDC), cho- ques identitários regionais e a ausência de uma narrativa nacional amplamente aceite constituem factores que dificultam a consoli- dação de coesão estatal.
A ausên- cia de uma figura ou data de consenso (divisões entre Lumumbistas e Mobutistas) também facilita conflitos cíclicos no Leste. Em contraste, o Ruanda, após o genocídio de 1994, criou uma identidade nacional para superar divisões étnicas traumáticas.
Actualmente, a Identidade “Ndi Umunyarwanda” (Sou Ruandês) fez uma substituição forçada de rótulos étnicos (Hutu/Tutsi). Todos estes casos africanos mostram que a política dos marcos históricos não é um luxo académico. É uma variável que importa empiricamente para a coesão social, a estabilidade política e a qualidade da inclusão democrática.
Num mundo em que narrativas identitárias são cada vez mais disputadas, tanto interna quanto externamente, é crucial reconhecer que a construção da identidade nacional é um processo contínuo, que depende de símbolos, instituições e narrativas que se reforçam reciprocamente. Sendo que, mais de 60% da população angolana tem menos de 25 anos, existe um hiato geracional.
Neste caso, para a maioria da população, o 4 de Fevereiro é uma “memória herdada” e não vivida, o que reforça o argumento de Pierre Nora sobre a necessidade de lugares de memória institucionais para evitar a fragmentação. É precisamente por isso que o 4 de Fevereiro não é uma relíquia do passado nem um artefacto partidário circunstancial.
Ele é um marco político activo, cuja função não se esgota na evocação do passado, mas na organização do futuro. Numa Angola jovem, diversa e exposta às pressões globais de fragmentação identitária, preservar o 4 de Fevereiro significa garantir continuidade, previsibilidade e pertença num tempo marcado pela incerteza
POR: EDMUNDO GUNZA









