Durante anos, Angola — como muitos países — acumulou planos, programas e intenções nos domínios da juventude e do desporto. Documentos bem escritos, diagnósticos correctos, discursos mobilizadores.
Ainda assim, o resultado nem sempre foi proporcional ao esforço anunciado. A razão é simples e dura: política pública não falha por falta de ideias — falha por falhas de execução. É por isso que o mais recente ciclo de decisões no sector da juventude e do desporto merece leitura técnica, não comemorativa. O ponto crítico não está na realização de conselhos, fóruns ou encontros institucionais.
Está na arquitectura que sai deles: instrumentos legais, carteira de investimento, mecanismos de responsabilização, métricas de acompanhamento e coordenação intersectorial. Sem estes elementos, o sistema vive de eventos. Com eles, começa a viver de resultados.
Há quatro mudanças estruturais que merecem atenção. Primeiro: a consolidação de planos plurianuais com enquadramento operacional — juventude e desporto deixam de ser tratados apenas como áreas sociais e passam a ser tratados como sistemas com metas, indicadores e cronogramas.
Segundo: o reforço do eixo legal e regulatório. Sistemas desportivos e políticas juvenis fracassam quando operam em vazio normativo. Contratos-programa, regras de licenciamento, regime de infra-estruturas e enquadramento técnico não são burocracia — são previsibilidade. E previsibilidade é condição para investimento, qualidade e fiscalização. Terceiro: a ligação entre investimento público e planeamento sectorial.
Carteiras de projectos deixam de ser listas dispersas e passam a responder a uma lógica estratégica. Construir não é suficiente; é preciso saber porquê, para quem, com que modelo de gestão e com que retorno social. Quarto: a introdução definitiva da medicina do desporto e da base científica no sistema. Alto rendimento, desporto escolar e actividade física comunitária não podem continuar desligados de ciência, prevenção e acompanhamento técnico.
Países que ignoram isso pagam em lesões, abandono precoce e baixo desempenho competitivo. Mas há um ponto ainda mais sensível — e raramente escrito com clareza: nenhum plano sobrevive à má coordenação institucional. Juventude e desporto cruzam educação, saú- de, autarquias, finanças, infra- estruturas e emprego. Sem governação articulada, cada actor executa bem a sua parte e o todo falha. O próximo teste não é normativo — é operacional.
A pergunta certa não é “o que foi aprovado?”, mas sim o que entra em execução primeiro, quem responde por atrasos, que indicadores serão públicos, que metas serão medidas trimestralmente e que correcções serão feitas quando algo falhar. A maturidade de uma política pública mede-se pela capacidade de corrigir trajectória, não pela ausência de erro. Há também um risco que precisa ser dito: quando a comunicação institucional se limita a anunciar actos e não a explicar impactos, perde-se confiança pública.
O cidadão não vive de diplomas — vive de efeitos concretos: acesso, oportunidade, qualida- de, continuidade. Se este novo ciclo conseguir manter três disciplinas — medição, transparência e responsabilização — então não estaremos perante mais um momento institucional. Estaremos perante uma viragem de método. Juventude e desporto não precisam de mais promessas. Precisam de sistemas que funcionem. A política pública começa onde a cerimónia termina: na execução.
POR: EDGAR LEANDRO









