O mapa das viagens papais nunca é neutro. Ele diz mais sobre o presente do que sobre a fé. Não podemos es- quecer que Leão XIV é o primeiro pontífice norte-americano da história. A sua eleição já representava uma inflexão simbólica: pela primeira vez, a liderança máxima da Igreja vem do centro do poder real global contemporâneo.
Mas é nas viagens que um papa revela o que pretende fazer com esse poder. E, até agora, o Papa Leão foi parcimonioso: poucas deslocações, todas carregadas de intenção, evitando a agenda turística que marcou outros pontificados. É por isso que a África surge como gesto fundador. Não é uma visita protocolar, nem uma concessão à demografia católica do continente. É uma escolha política, teológica e civilizacional.
Ao iniciar o seu percurso internacional por África — e, dentro dela, por Angola — o Papa Leão inverte a lógica tradicional: em vez de falar do Sul a partir do Norte, decide escutar o mundo a partir de onde ele cresce, sofre e se reinventa. Angola não é apenas um país africano. É um território de sobreposições históricas: cristianismo antigo e vivo, herança colonial portuguesa, marcas profundas da Guerra Fria, economia petrolífera, juventude esmagadoramente maioritária e uma relação ambígua com a Europa e com o Brasil.
Ao escolher Angola, o papa americano toca, de uma só vez, em África, Portugal e Brasil — os três vértices de um triângulo atlântico que continua mal resolvido. Para Portugal, esta visita funciona como espelho incômodo: a antiga metrópole já não é centro espiritual, político ou demográfico do seu próprio legado. Para o Brasil, é um aviso claro: o maior país católico do mundo deixou de ser o eixo natural da Igreja no Sul.
A África fala mais alto, cresce mais rápido e ocupa hoje o lugar que o Brasil julgou permanente. Para ambos, a mensagem é a mesma: o futuro da língua, da fé e da influência cultural já não se decide em Lisboa nem em Brasília. O facto de esta ser uma das primeiras viagens do Papa Leão reforça ainda mais o seu peso simbólico. Inícios são declarações. E esta diz que o pontificado não será conduzido a partir da nostalgia europeia nem do conforto institucional norte-americano.
Será feito a partir das margens que já não aceitam ser margens. Há também um silêncio eloquente na notícia: fala-se de migração apenas quando surgem as Ilhas Canárias, como se o drama humano só ganhasse estatuto moral ao tocar o território europeu. A presença do papa em África rompe essa hipocrisia geográfica.
Ele vai à origem, não apenas ao efeito. No fundo, a visita do papa americano à África revela algo desconfortável para o mundo lusófono: Portugal e Brasil continuam a pensar-se como centros, quando já são, na melhor das hipóteses, pontes. E pontes só têm sentido se aceitarem que o tráfego principal já não passa por cima delas, mas ao lado.
POR: JOSÉ MANUEL DIOGO









