Adecisão do Banco Nacional de Angola (BNA) de reduzir a taxa directora de juros de 18,5% para 17,5% representa mais do que um mero ajuste técnico: é um sinal claro de que a economia angolana está a ganhar espaço de manobra para equilibrar a estabilidade de preços com o crescimento económico necessário à criação de emprego e melhoria do poder de compra.
Com a inflação a desacelerar de forma consistente (de 27,5% em 2024 para 15,7% em 2025), o BNA aproveita uma janela de oportunidade para iniciar 2026 com uma política monetária mais acomodatícia, projectando um crescimento do PIB de 3,5%. Contexto da decisão: Três cortes consecutivos Esta redução de 1 ponto percentual marca a terceira flexibilização monetária desde Setembro de 2025, quando o BNA abandonou o nível terminal de 19,5%.
A sequência de cortes — de 19,5% para 19%, depois para 18,5% e agora 17,5% — demonstra uma estratégia deliberada e gradual, guiada por indicadores concretos: – Inflação controlada: A desaceleração para 15,7% em Dezembro superou as metas definidas para 2025; – Liquidez gerida: O controlo da massa monetária e a adequação da liquidez à actividade económica criaram condições para o descontraimento; – Estabilidade cambial: O kwanza manteve-se estável ao longo de 2025, reduzindo pressões de importação; ‘Impactos estratégicos por stakeholder’.
1. Empresas e investimento produtivo
A redução da taxa de referência deverá traduzir-se em custos de financiamento mais baixos para o sector privado, particularmente o não petrolífero, que cresceu 4,3% em 2025. Empresas industriais, de construção civil e de serviços poderão aceder a empréstimos bancários com spreads menos penalizadores, incentivando: – Capacidade produtiva : Investimento em expansão de unidades fabris e modernização tecnológica; – Contratação de mão-de-obra: Redução do desemprego estrutural, que afecta cerca de 30% da população activa; – Competitividade externa: Melhoria da eficiência de exportadores não petrolíferos em mercados regionais.
2. Consumidores e poder de compra
Para as famílias angolanas, o efeito será indireto mas significativo: – Crédito ao consumo : Redução gradual dos juros sobre empréstimos pessoais e crédito automóvel; – Contenção de preços: manutenção da tendência de desinflação preservará o poder de compra, com projecção de 13,5% para 2026; Expansão do crédito: Maior disponibilidade de financiamento para aquisição de bens duráveis;
3. Sector bancário e margens de Lucro
Os bancos enfrentam um duplo desafio: – Compressão de margens: A estreitza do corredor de juros reduz a rentabilidade das operações de mercado monetário; e – Risco de crédito: Apesar da melhoria das condições macroeconómicas, o risco de incumprimento permanece elevado devido à fragilidade do tecido empresarial No entanto, a expansão da carteira de crédito poderá compensar a menor margem unitária, desde que a estratégia de concessão seja prudente.
4. Mercado de capitais e investimento estrangeiro
A política de juros mais baixos poderá: – Diversificar fontes de financiamento: Reduzir a dependência do endividamento externo, que se manteve elevado; – Atrair investimento produtivo: Juros reais mais atrativos (considerando a inflação em queda) podem incentivar o investimento directo estrangeiro em sectores como agricultura, turismo e energias renováveis; – Desvalorização controlada: Evita a necessidade de desvalorização competitiva do kwanza, preservando a confiança dos investidores; Perspectivas e Recomendações Cenário base (Probabilidade: 60%). O BNA deverá continuar o ciclo de flexibilização, com a taxa a descer gradualmente para 14-15% até final de 2026, conforme projectado pela Oxford Economics. Isto pressupõe: – Inflação a convergir para 13,5% como previsto; – Manutenção da estabilidade cambial; e – Crescimento do sector não petro lífero acima de 4%. *
Por: DIOGENES LENGA
Economista








