Desde as eras antigas, o ato sexual representou uma das atividades mais importantes das obrigações humanas, sendo considerado indispensável para a sobrevivência e preservação do grupo por meio da procriação. (Flávio Gikovate). Entretanto, como dizem por aí: “tudo muda à nossa volta”. Albert Einstein certa vez mencionou que uma das poucas certezas que temos enquanto homens existentes é de que tudo à nossa volta está em constante variação. Assim, se tudo de facto muda, obviamente, a actividade sexual entre homens também é passível de variação.
Na visão de Silva (2025), o ato sexual, neste contexto, corresponde à actividade libidinosa de união humana, podendo ser oral, anal, vaginal ou virtual. Historicamente, nunca houve um momento entre as civilizações em que a actividade sexual não estivesse inserida entre as responsabilidades e obrigações do homem, embora, é claro, seu objectivo e dinâmica pudessem variar entre os povos e regiões.
Para algumas civilizações antigas, tais como o Egipto, Babilónia, Síria e Fenícia, o ato sexual não representava mormente um momento de descontração e lazer, mas sim um momento de atividade litúrgica, sendo usado para reverenciar divindades e encorajado em rituais de culto e adoração.
Na visão de grandes pensadores gregos como Aristófanes (em A Guerra do Sexo), a actividade sexual era não apenas considerada vital para a dignidade masculina e sua integração na escala social, mas igualmente era considerado um absurdo e ofensa aos deuses um homem negar algum envolvimento sexual com alguém, sejam quais fossem as circunstâncias.
No contexto africano (e Angola não é exceção), eram organizadas escolas sociais, que, dentre vários focos, um dos não menos importantes era o preparo de homens e mulheres para a vida sexual, sendo-lhes fornecidas técnicas e outros segredos com vista a cativarem mutuamente os seus futuros consortes.
Entre os gregos e romanos, o acto sexual era tão importante em escala social que era muito comum homens marcarem encontros coletivos para o sexo, ao som de músicas e vinho, alguns dos quais as mitologias rezam que deuses desciam e participavam ativamente deste cenário de orgia muito costumeira na rotina diária de qualquer cidadão. Na visão de Luís Filipe Pondé, a actividade sexual é hoje uma das mais banalizadas e mediocrizadas da actualidade.
O advento do modernismo, com destaque para o incentivo ao progresso da ciência, a inclusão das máquinas nos meios de produção, a integração das mulheres no mercado de trabalho e nas escolas superiores, o reajuste quase universal das legislações sobre o período de trabalho activo, etc., fez com que o envolvimento sexual entre humanos acabasse perdendo uma certa significação.
Para Pondé, existe uma implícita relação entre a qualidade do ato sexual com as condições sociais, ou seja, uma realidade social mais rica implica negativamente para uma produção sexual mais ineficiente e, contrariamente, uma condição social mais pobre implica positivamente para uma experiência sexual mais eficiente. Já dizia Marcel Proust: “Se nada muda, e você muda, então tudo muda”.
Ou seja, é a condição do homem (em pluridimensão) que determina as condições sociais e a qualidade dos seus actos, inclusive a do sexo. Na Antiga Roma, conta-se que, quando o império começou a enriquecer, mudou igualmente o seu paradigma para o sexo. No séc. XVIII e XIX, a mudança da condição financeira na Inglaterra e do seu modo de produção implicou paralelamente na mudança da actividade sexual (sugere Pondé). Para a BBC Brasil, desde os anos 80, onde quer que chegasse o sinal da televisão, reduzia-se drasticamente a qualidade prática sexual entre os humanos.
A inserção da mulher no mercado de trabalho e a sua integração ao ensino superior fizeram com que hoje, literalmente, o sexo para elas passasse a ser visto como uma actividade menos privilegiada, sendo em largos casos apenas visto como instrumento alternativo de lazer e geração de filhos (diz Pondé). Assim, o sexo, que antes era uma das mais importantes atividades humanas, sendo inclusive capaz de gerar guerra entre deuses e homens, centrados nas mitologias gregas (ler em Odisseia), hoje ocupa apenas um momento opcional de lazer e certa recriação.
De alguns casais, colhem-se testemunhos de que, para que seja possível a existência da intimidade entre ambos, considerando a rotina e obrigações socioprofissionais de cada um, tem havido a necessidade de se recorrer às escaladas ou a agendamentos para que seja possível a possibilidade de copulação. Segundo a Revista Veja, um dos possíveis fatores associados à escassez desta prática entre os parceiros é a abertura da internet, que permite o acesso a imagens e vídeos que proporcionam semelhantes satisfações, e os instrumentos modernos de excitação e contacto, como é o caso dos vibradores.
Enfim, embora custe dizer, as casas de prazeres (vulgo prostíbulo) estão cada vez mais em ascensão, sendo em alguns países um ramo das atividades socio-profissionais, tudo porque atualmente é muito mais fácil e prático conseguir a realização sexual nas ruas do que dentro de casa. Portanto, precisamos ter a coragem de admitir que o Modernismo, de facto, trouxe implicações nefastas ao nosso acto sexual. Finalista em História pela UAN.
Por: SAMPAIO HERCULANO








