Dizem que o senso comum é o saber do povo, a bússola invisível que orienta o que é razoável, equilibrado e, no mínimo, lógico. Mas alguém, em algum ponto da linha da história recente, deve tê-lo metido num saco, vendido no mercado do improviso e deixado o país a navegar no absurdo.
O senso comum sumiu — e o que restou foram opiniões com uniforme de certeza e certezas que não resistem a cinco minutos de conversa. Hoje, há quem defenda o indefensável com o peito inchado, o verbo engomado e uma convicção que faria inveja a qualquer filósofo.
Basta abrir a boca para ouvir a frase “é a minha opinião”, dita como quem ergue uma bandeira de soberania. E, de facto, é: soberania do disparate. O problema não é o direito de opinar — é a epidemia de achar que toda opinião é automaticamente sábia.
O senso comum, coitado, deve estar algures escondido, fugido do barulho, a tentar entender como o ridículo se tornou argumento. Nas ruas, nas repartições e até nas salas de aula, a lógica parece ter tirado férias prolongadas.
A senhora que reclama do preço da gasolina, mas recusa apanhar o táxi porque “quer conforto” é a mesma que jura que a culpa é do governo — qual quer governo, contanto que o culpado não seja o próprio consumo.
O cidadão que deita lixo na rua exige limpeza urbana. E o funcionário que não trabalha bem reclama da falta de reconhecimento. Tudo parece uma grande peça de teatro em que o elenco ensaia a hipocrisia com perfeição. Mas talvez o sumiço do senso comum tenha começado na escola, onde se ensina a decorar, mas raramente a pensar.
O aluno aprende que 2 + 2 = 4, mas nunca lhe perguntam o que fazer quando a equação é moral. Aprende que “respeito é bom e conserva os dentes”, mas não aprende a diferenciar respeito de medo. Talvez o senso comum tenha fugido da escola no dia em que se trocou o raciocínio pelo ritual: a nota substituiu a reflexão. No mercado, então, o senso comum nem entra. É barrado logo à porta, revistado, desconfiado.
As pessoas pagam o dobro pelo mesmo produto só porque vem nu ma embalagem colorida, e depois queixam-se da inflação. As marcas viraram religião, e a publicidade, o novo sermão de domingo. Enquanto isso, o bom senso olha tudo de longe, de braços cruzados, a pensar: “Vocês perderam o norte.”
Nas redes sociais, o cenário é ainda mais trágico — ou cómico, dependendo do humor do leitor. Ali, cada um é ministro da verdade, juiz de si mesmo e especialista em tudo: política, saúde, gramática e até teologia.
A ignorância, que antes tinha vergonha, agora tem e seguidores. E o senso comum? Foi bloqueado por “discurso negativo”. Vivemos uma era em que a emoção aposentou o raciocínio. Já não importa se algo é verdadeiro; bas ta ser sentido.
O “eu sinto que” ganhou força de lei. E quando o sentir se torna critério de verdade, a realidade torna-se uma feira livre: cada um monta a sua barraca de crenças e vende o que quiser, sem recibo nem garantia.
O resultado é um caos doce, onde todos têm razão e ninguém tem juízo. Há dias em que me pergunto se o senso comum não se cansou de ser ignorado e decidiu simplesmen te partir.
Talvez tenha feito as ma las e emigrado para um lugar onde o trânsito obedece às regras, os debates são racionais e o cidadão entende que direitos e deveres andam de mãos dadas. Aqui, em vez
disso, cultivamos o “jeitinho”, o “deixa andar”, o “não é nada comigo”. Um país inteiro a fazer malabarismo com desculpas. Talvez o ladrão do senso comum nem seja uma pessoa, mas um sistema: um modo de viver onde pensar dá trabalho e o superficial é mais rentável. Onde o que importa é parecer, não ser. Onde o diploma vale mais que a competência, e o grito mais que o argumento.
Nesse ambiente, o senso comum morre sufocado — e quem o menciona ainda corre o risco de ser chamado de arrogante. Contudo, há pequenos sinais de resistência.
O taxista que devolve o troco certo, o aluno que questiona o professor, a vizinha que não entra em boato, o gestor que cumpre horário sem precisar de chefe a vigiar — todos eles são suspeitos de guardar um pouco do senso comum perdido. São raros, mas exis tem. E talvez seja deles que renasça a lucidez. Afinal, senso comum não é ausência de estudo, é presença de discernimento.
É saber que nem toda verdade cabe num slogan, que nem toda notícia é informação e que pensar dói, mas salva. É perceber que viver em sociedade exige mais que direitos: exige de cência, empatia e um pouco de lógica — essa senhora tão desvalorizada nos últimos tempos.
Por isso, começo o ano com esta pergunta simples e, ao mesmo tempo, complexa: quem roubou o senso comum? E se a resposta for “nós mesmos”? Porque, no fim das contas, ele não foi roubado — foi esquecido. Entre as urgências, as distrações e o dismo, fomos deixando de exercitar o pensamento e terceirizando o juí zo.
Preferimos o conforto da opinião alheia à fadiga de pensar. E assim, dia após dia, entregamos o bom senso de bandeja a quem grita mais alto. Talvez ainda haja tempo de resgatar o que se perdeu. Mas, para isso, será preciso reaprender a desconfiar do absurdo, a duvidar do fácil, a ler além da manchete. E, sobretudo, a praticar o velho hábito de pensar antes de falar — esse exercício revolucionário que já foi, em outros tempos, o próprio senso comum.
Por: ANDRÉ CURIGIQUILA
Professor









