Estudantes universitários, escritores, investigadores culturais, linguistas, entre outras individualidades, reunidos em palestra Tripartida, na União dos Escritores Angolanos (UEA), concluíram que a refundação cultural de Angola exige mais do que discurso, requerendo infraestruturas de distribuição de livros, vontade política, ensino de línguas e coerência moral das lideranças
Atentos aos acontecimentos que se registam diariamente neste domínio, os participantes admitiram que, enquanto não for resolvida a crise de identidade no ensino de base e não se democratizar o acesso ao livro, a angolanidade continuará a ser um conceito frágil, fragmentado e polarizado.
A palestra, realizada no âmbito da jornada comemorativa do 8 de Janeiro – Dia da Cultura Nacional, teve como tema “Cultura: a Revolução Adiada” e contou com preleções do escritor José Luís Mendonça, do teólogo Bento André e de António Roberto, entre outras figuras ligadas ao pensamento cultural e espiritual.
As sessões decorreram num ambiente bastante participativo e tiveram início com a exposição do teólogo Eurico Almeida, que realçou que a cultura evolui em função das condições materiais, sendo que cada etapa histórica corresponde à materialização de determinados hábitos culturais.
Durante a sua intervenção, o teólogo evocou o pensamento do Poeta Maior, António Agostinho Neto, segundo o qual o futuro do homem angolano deve ser simultaneamente angolano, africano e universal.
Eurico Almeida considerou ainda que a expressão cultural angolana resulta, em muitos casos, de processos de cópia, uma ideia posteriormente esclarecida perante questionamentos do público.
Por sua vez, o escritor José Luís Mendonça, partindo de uma perspectiva historiográfica, analisou os factos históricos com o objectivo de repor o que designou como “legalidade histórica”, estabelecendo uma oposição entre a espiritualidade africana e aquela que classificou como hebraica. Citou Kimpa Vita e apresentou a cultura como uma das maiores revoluções da humanidade.
Enquanto escritor, destacou os principais marcos literários que constituem formas de resistência e afirmação cultural, referindo o legado de autores como Assis Júnior, Cordeiro da Mata, o movimento “Vamos Descobrir Angola”, Agostinho Neto, Pepetela, entre outros. Fez também referência à Carta do Renascimento Cultural, documento que considera pouco conhecido, sobretudo pela juventude.
No seu estilo crítico habitual, José Luís Mendonça denunciou o desenraizamento da cultura nacional e a progressiva extinção das línguas bantu. Como resposta a esses desafios, apresentou a proposta da “Revolução Afectiva” ou “Antropo-afectividade”, um fenómeno baseado na consciência humana, defendendo que a transformação não deve esperar pela natureza, mas resultar da ação consciente do homem. Propôs igualmente a realização de estudos aprofundados sobre as minorias étnicas mais antigas do território nacional.









