O líder comunitário António Cachilingo socorre-se da estória para sustentar que o Dombe-Grande, outrora considerado o centro do misticismo na região Sul de Angola, era uma localidade onde a prática de feiticismo tanto prejudicou, quanto serviu para educar a sociedade. Em entrevista ao jornal O PAÍS, lembrou que, à época, não havia roubos e respeitava-se a figura do mais-velho. No passado, segundo o entrevistado, era impensável um soba ser assaltado, porque as jibóias encarregavam-se da protecção dos bens
Nos tempos idos, o nome «Dombe-Grande» estava muito associado ao feitiço, devido ao misticismo que caracterizava o agora município, que até bem pouco tempo era comuna da Baía-Farta. Nos dias que correm, a fama de terra do feitiço está completamente diminuída, tendo o líder comunitário, António Cachilingo, apontado a morte de muitos mais-velhos como estando na base. Cachilingo lamenta o facto de esses não terem transmitido o legado “feiticista” à geração que seguiria depois deles.
“Não conseguiram passar esse lado aos jovens”, justifica. Ele tem nas denominações religiosas um outro factor que ditou o “desaparecimento” do feitiço no DombeGrande. Recorda que, num passado recente, se a pessoa fosse assaltada na capital do país e, por conseguinte, dissesse ser da região, o bem roubado era devolvido, daí o músico Sebem ter sugerido que o feiticeiro devesse ser procurado, justamente no Dombe-Grande.
É com tristeza que o mais-velho António Cachilingo sinaliza o registo de furtos e roubos. Lamenta que até os sobas têm sido vítimas actualmente. O que, conforme disse, era impensável há sensivelmente 20 anos. “A religião está a se implantar quase em toda a parte.
Cada bairro tem uma catequese. E o outro factor que faz com que essa fama diminua é a questão das escolas, porque, naquele tempo, o Dombe-Grande tinha só uma escola que era escola primária”, conta. No passado, a mente dos pais era tão retrógrada que não admitiam as crianças, sobretudo do sexo feminino, irem para a escola com o argumento de que iam aprender a escrever cartas para os homens.
“E os homens vão aprender o roubo. Esses três elementos é que fizeram com que a nossa fama diminuísse e, sobretudo, o desaparecimento físico dos mais-velhos que tinham esse feitiço”, considera. O líder comunitário, António Cachilingo, lembra que o feitiço representava “poder e respeito”.
À época, Dombe-Grande foi das poucas regiões de Angola onde, praticamente, os “beligerantes” não conseguiam penetrar, nem tão pouco os filhos de nativos mandados para a frente de comando. Cachilingo explica que, nessa altura, o ancião Tchiwiyawiya se encarregava de preparar “misticamente” os jovens, de tal modo que, em caso de serem apanhados nas famosas rusgas militares, não poderem ser tidos nem achados.
Os jovens até eram apanhados. Entretanto, postos no então Centro de Recrutamento Militar (CRM), transformavam- se em velhos, sem valor nenhum para a guerra. “Não era soba. Era apenas um kimbandeiro. Os jovens recebiam banho. E o chefe militar ficava chateado com os recrutadores. Dizia “eu pedi para ir buscar jovens e não velhos”. Isso acontecia por causa do feitiço lançado pelos mais-velhos da região.
Eles não permitiam que nenhum jovem fosse à tropa”, contou. “Os mais-velhos tinham esse feitiço como protecção da terra e da localidade. Veja só que, desde 1975, o Dombe só foi atacado nos últimos anos. Só foi em 2002. Durante esse tempo, nunca houve guerra, por causa da protecção dos nossos mais-velhos que enveredaram para o feitiço”, continua. Feitiço como meio de educação Se, por um lado, o feitiço era um mal, por ter prejudicado muita gente, por outro, o líder comunitário via positividade nessa prática mística por causa da componente educacional.
Porquanto, em rigor, os mais-velhos enfeitiçavam quem fosse malfeitor. Chachilingo diz que quem tivesse uma conduta eticamente aprovada dificilmente era visado por “acções feiticistas”. “Você que é uma pessoa educada, não mexe nada, não era alvo de feitiçaria.
Feitiço era um meio de educação e de protecção”, salienta. Especialistas têm, igualmente, apontado as cheias, ocorridas há mais de dez anos, com o rio Coporolo a transbordar, como uma outra coisa da fraqueza feiticista do Dombe.
O líder comunitário confirma essa tese, sustentando que muitos dos sobas foram apanhados de surpresa, quando tal ocorreu, desconfiando que as águas tenham carregado consigo muitos ídolos, para além de animais ferozes que eram como que os guardas de fazendas.
A título de exemplo, ele elucida que, no passado, as fazendas não precisavam de guarda, as cobras é que se encarregavam pela segurança. Se alguém tentasse roubar algum produto na lavra do outro, uma cobra enrolava-o e só o largava quando o dono chegasse. “Jibóia te enrolava e só era liberado depois do dono aparecer. Não era preciso polícia aqui no Dombe-Grande”, resume.
Por: Constantino Eduardo, em Benguela








