A iniciativa, materializada num dos quarteirões do Cemitério da Camunda, é dos quatro sobreviventes da equipa de Futebol da Maboque, com ajuda de empresários e de mais individualidades locais, em Benguela.
O memorial vai servir para as famílias das vítimas do acidente de aviação poderem homenagear os seus entes queridos, mortos em sequência de um acidente de aviação a 17 de Junho de 1995, há 30 anos, A criação de um memorial dessa dimensão é um sonho tornado em realidade – admite Solito Gamba, um dos quatro sobreviventes da equipa, à época preparador físico.
O que não sai da memória de Solito, que à data dos factos contava com 30 anos, são as circunstâncias daquele fatídico dia em que o avião Kaza, da Força Aérea Nacional, despenhou. Naquela noite, conta, tinham acabado de disputar um jogo a qual sagraram-se vencedores, pondo-os a um passo para o Girabola de 1996.
“Nós embarcamos 52 pessoas e somos quatro sobreviventes a quem Deus deu a segunda oportunidade de estar vivo”, considera o antigo preparador físico, ao explicar que se definiu o Cemitério Municipal da Camunda por ser naquele campo santo onde repousam o grosso das vítimas.
Aquela noite revelou-se a mais longa que já teve em toda a sua vida, ao dar conta de que grande parte dos sobreviventes teve sequelas graves, por terem tido uma caminhada longa “das 5 da manhã até por volta das 16/17 horas. Das caminhadas mais longas que eu tive.
Foi um momento que nós não conseguimos, até hoje, superar, mas, com a graça Divina, temos conseguido dar passos adiante”, confessa. Solito olha para os céus e diz ter sido de lá de onde vêm as energias e forças que o mantêm de pé até aos dias de hoje, a ponto de ter podido contribuir para a construção de um memorial, que, de resto, concretiza um sonho de há trinta anos.
A equipa da Maboque era constituída por 23 a 25 pessoas, porém a bordo do avião Kaza estariam outros passageiros normais que estariam de regresso do Cunene para Benguela, totalizando, desta feita, 52 pessoas no interior da aeronave.
Destas, apenas 4 sobreviveram. As lágrimas tendem, teimosamente, a visitar os cantos dos olhos de Joaquim Osvaldo Jesus, antigo ponta-de-lança da Maboque, sempre que se refere ao acidente de aviação que vitimou uma boa parte de companheiros de então.
Jesus está feliz por terem conseguido a proeza de construir um memorial às vítimas do fatídico acidente, de sorte que projecta sonhos mais tranquilos, doravante.
O artilheiro conta, rebobinando as imagens gravadas no seu subconsciente, que, minutos antes, se vivenciou momentos de turbulência a sinalizar de que o avião em que seguiam a bordo acidentaria.
O pânico tomou conta de si, particularmente. “Dia seguinte, vimos aquela cena muito triste. Vermos colegas com quem tínhamos passado momentos memoráveis, depois de uma vitória saborosa. Começou um assombrado das nossas vidas”, disse.
À época, a Maboque jogava à segundona e, por conseguinte, lutava para ascender à primeira divisão do campeonato. Momentos antes, tinha ganhado o Dínamos do Cunene por duas bolas a uma, uma vitória que lhe colocou, desta feita, a um passo para o Girabola.
Porém, o sonho de atletas, como o trinco Caino Cunha e Joaquim Jesus, ao que se juntam os de Cesar Cândido, massagista, e Solito Gamba, preparador físico, interrompido por força do acidente de aviação.
Caino Cunha, a residir na Alemanha, entrou, de forma traumatizada, no avião que lhe traria a Angola para assistir à inauguração do memorial que vai homenagear companheiros seus, tombados há 30 anos.
O trauma foi sustentado com o facto de, no dia em que se fez ao avião, ter recebido a informação de que uma aeronave despenhou, na Índia, isto na semana passada, com mais de cem pessoas a bordo. Apenas uma pessoa sobreviveu.
Nessas circunstâncias, as imagens de há trinta anos inundavam a memória. Era um sufoco à grande. “Uma viagem um bocadinho tumultuosa, porque na altura em que eu estava no avião foi quando recebi a notícia de um avião que, no mesmo dia, tinha despenhado na Índia. Foi-me difícil fazer mais de 8 horas de voo”, confessou.
Veio a Angola com um misto de sentimentos: felicidade e tristeza. Por um lado, por terem materializado um projecto há muito desejado, por outro, porque, com gesto, abria-se novamente as feridas fechadas há 30 anos.
“Eu continuo a conviver com este trauma durante estes anos todos”, admite o antigo médio-defensivo, que ostentava a camisola 13 da equipa da Maboque.
Ao Cemitério Municipal da Camunda, acorreram empresários, membros da sociedade civil, jornalistas e demais convidados, momento aproveitado para relembrar companheiros e familiares, na altura craques da emblemática equipa de futebol, propriedade do Grupo Empresarial César e Filhos. A cerimónia de inauguração coube ao administrador municipal de Benguela, Armando Vieira, antecedida de uma cerimónia religiosa.
Por: Constantino Eduardo, em Benguela