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Viva o futebol!

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
17 de Julho, 2026
Em Opinião

Há um privilégio que, muitas vezes, passa despercebido aos adeptos mais jovens: estamos a viver uma época extraordinária da história do futebol. Num espaço de poucos anos, temos o privilégio de assistir ao auge de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, dois dos maiores jogadores de todos os tempos, e agora vemos uma nova geração assumir o palco com a mesma ambição de deixar uma marca eterna. Kylian Mbappé, Jude Bellingham, Harry Kane, Lamine Yamal, Vinícius Júnior, Amad Diallo e tantos outros representam o presente e o futuro de uma modalidade que continua a reinventar-se. No entanto, existe uma realidade que me preocupa profundamente.

O fanatismo clubístico tem vindo a substituir a capacidade de contemplação. Mui tos adeptos já não assistem ao futebol para apreciar o talento, mas para confirmar preconceitos. Em vez de celebrarem um grande golo ou um gesto técnico extraordinário, procuram argumentos para desvalorizar quem o protagonizou, apenas porque veste a camisola do clube rival ou da selecção adversária.

É uma forma redutora de olhar para o futebol. Mais grave ainda, é uma forma de desperdiçar mo mentos únicos que dificilmente voltarão a repetir-se. Sempre defendi que apoiar um clube é uma das maiores manifestações de paixão que existem no desporto. A rivalidade faz parte da identidade do futebol, alimenta debates, cria histórias e transforma cada jogo numa experiência emocional.

O problema surge quando essa paixão se transforma em cegueira. Quando o amor pelo nosso clube nos impede de reconhecer o mérito do adversário, deixamos de ser apreciadores do jogo para nos tornarmos prisioneiros do fanatismo. O verdadeiro adepto não perde identidade por reconhecer a qualidade do rival. Pelo contrário, engrandece o espectáculo ao compreender que o futebol é construído precisamente pelo confronto entre grandes talentos. Não existe vitória sem um adversário digno, nem glória sem respeito por quem está do outro lado.

Ao longo da minha vida, aprendi a observar o futebol sem preconceitos. Essa liberdade permite-me elogiar quando há motivos para elogiar e criticar quando há razões para criticar, independentemente do clube ou da selecção representada pelo jogador. A camisola nunca deve ser um escudo para esconder más exibições, nem um obstáculo para reconhecer desempenhos extraordinários. É exactamente isso que acontece com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.

Em vez de aproveitarem o privilégio de ver dois génios em simultâneo, muitos preferem transformar a discussão numa guerra permanente. Para alguns, elogiar Messi é diminuir Cristiano. Para outros, reconhecer a grandeza de Cristiano significa desvalorizar Messi. Perdeu-se demasiado tempo em comparações estéreis quando a verdadeira sorte era simplesmente poder assistir aos dois.

Essa mentalidade continua viva na nova geração. Basta um jovem jogador destacar-se para surgirem imediatamente ró tulos, campanhas de desvalorização ou comparações precipitadas. Esquece-se de que cada craque possui características próprias e de que o futebol é suficientemente rico para acolher diferentes estilos de excelência.

Como não admirar a explosão de Mbappé, a inteligência competitiva de Bellingham, a experiência goleadora de Harry Kane, a criatividade quase irreverente de Lamine Yamal, a velocidade e imprevisibilidade de Vinícius Júnior ou a irreverência de Amad Diallo? Cada um oferece algo diferente ao jogo, cada um acrescenta beleza ao espectáculo e nenhum precisa de ser diminuído para que outro seja valorizado. Os jovens adeptos têm hoje acesso a muito mais futebol do que qualquer geração anterior.

Podem acompanhar campeonatos de todos os continentes, analisar estatísticas, rever jogadas em segundos e discutir o jogo em tempo real. Paradoxalmente, essa abundância de informação nem sempre produz maior capacidade de análise. Mui tas opiniões são moldadas por redes sociais, páginas de adeptos ou influenciadores cuja prioridade não é compreender o futebol, mas alimentar rivalidades e gerar polémicas.

O futebol merece mais do que isso. Deve ser observado com curiosidade, espírito crítico e respeito pelo talento. Merece adeptos capazes de aplaudir um grande golo, mesmo quando é marcado pelo adversário, ter comentários equilibra dos, análises honestas e debates sustentados por factos, e não por paixões cegas. A história ensina-nos que os grandes jogadores passam, mas as suas obras permanecem. Daqui a algumas décadas, os golos, os dribles, as assistências e os mo mentos inesquecíveis continuarão gravados na memória colectiva.

O fanatismo, pelo contrário, desaparecerá sem deixar qualquer legado. Por isso, deixemos que o futebol cumpra a sua missão mais nobre: emocionar-nos. Aproveitemos cada exibição destes extraordinários artistas enquanto ainda podemos vê-los em acção. O futebol é demasiado belo para ser aprisionado pelo preconceito clubístico.

Aplaudamos quem merece aplausos, critiquemos quem merece críticas, mas façamo-lo sempre com honestidade intelectual e respeito pelo futebol. Porque, acima de qual quer camisola, de qualquer rivalidade ou de qualquer preferência, está o talento.

Por: Luís Caetano

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