Houve um tempo em que a figura do professor ocupava um lugar quase sagrado na comunidade. Não por que fosse perfeito, nem porque estivesse acima dos demais cidadãos, mas porque se entendia que aquele que entrava numa sala de aula carregava consigo uma responsabilidade que ultrapassava a simples transmissão de conheci mentos.
O professor era, em muitos contextos, uma referência. Era alguém a quem se reconhecia autoridade intelectual, disciplina, sentido de responsabilidade e, sobretudo, uma determinada conduta moral. Pais entregavam os filhos à escola com a expectativa de que, para além de aprende rem Matemática, História, Língua Portuguesa ou Ciências da Natureza, encontrariam adultos capazes de transmitir-lhes valores.
É por isso que o episódio recentemente tornado público, envolvendo um docente da Universidade Privada de Angola (UPRA) e uma estudante, merece ser olha do para além das imagens que circularam nas redes sociais.
De acordo com as informações tornadas públicas, a jovem e o docente ter-se-ão dirigido a uma hospedaria, onde foram surpreendidos por familiares da estudante. O professor foi agredido, filmado e exposto nas redes sociais. Posteriormente, segundo um comunicado do Serviço de Investigação Criminal (SIC), os au tores das agressões foram detidos e encaminhados para as autoridades competentes.
A violência praticada contra o docente não encontra justificação. A indignação, por mais legítima que possa parecer, não confere a ninguém o direito de fazer justiça pelas próprias mãos, muito menos de espancar e humilhar publicamente outra pessoa.
E precisa mente para impedir que a sociedade se transforme numa arena de vinganças que existem os órgãos de justiça Mas, ultrapassada a barbaridade das agressões, continua uma pergunta desconfortante: que imagem representa hoje o professor perante os seus alunos e perante a sociedade? É aqui que o caso ganha uma dimensão muito maior.
Durante décadas, ser professor significava, para muitas famílias, ocupar uma posição de confiança. O docente podia ser severo, exigente e até distante, mas esperava-se dele coerência entre aquilo que ensinava e a maneira como se com portava.
Hoje a sociedade mudou. As rela ções entre professores e estudan tes também mudaram. As univer sidades são espaços mais abertos, as relações interpessoais são mais complexas e os docentes, natural mente, continuam a ser homens e mulheres com vida privada, sen timentos e escolhas pessoais.





