Quem cresceu em Angola, sobretudo nas décadas marcadas pela incerteza e pelas cicatrizes da guerra, sabe bem o que significa não ter sequer um campo pelado para correr atrás de uma bola.
Sabe o que é improvisar balizas com chinelos, jogar descalço, e ainda assim sonhar. Por isso, quando hoje olhamos para infra-estruturas com bancadas organizadas, assentos individuais, balneários funcionais e até pistas de tartan, não estamos apenas a ver estádios, estamos a testemunhar uma mudança de paradigma.
O investimento do Executivo angolano na construção dos estádios Vicy António, no Uíge, e Daniel Cassoma Lutucuta, no Huambo, deve ser entendido como uma aposta séria no desporto e uma aposta igualmente na dignidade. É um reconhecimento de que a juventude precisa de espaços onde possa crescer, competir, falhar e recomeçar.
Onde o talento puro deixa de ser sufocado pela falta de condições e passa a ter um palco. É fácil, no conforto das redes sociais ou dos debates politizados, desvalorizar estas conquistas.
Exigir estádios à “Santiago Bernabéu” revela um profundo desencontro com a nossa realidade. Angola não precisa de monumentos de luxo, precisa, sim, de estruturas funcionais, acessíveis e sustentáveis e é exactamente isso que estes estádios representam.
O que alguns insistem em ignorar é o impacto invisível, aquele que não cabe nas fotografias oficiais. É o jovem que deixa a rua para treinar atletismo numa pista digna, é a criança que entra num estádio pela primeira vez e percebe que o sonho pode ser maior do que o bairro onde nasceu, é a comunidade que se reúne, que vibra, que volta a se sentir parte de algo maior. Ainda assim, considero haver um ponto que não pode ser negligenciado. Construir é apenas o primeiro passo, manter, gerir e preservar é o verdadeiro desafio.
A história recente do nosso país mostra que muitas infra-estruturas se perdem não por falta de investimento inicial, mas por ausência de uma gestão competente e responsável. Por isso, o meu apelo ao Ministro da Juventude e Desportos é não apenas pertinente, mas urgente.
Estes espaços devem ser entregues a entidades capacitadas, com visão e compromisso. A gestão dos estádios não pode ser burocrática nem improvisada, deve ser profissional, transparente e orientada para resultados. Só assim se garante que o investimento público não se transforme, com o tempo, em mais uma oportunidade desperdiçada.
No fundo, o que está em causa não são apenas estádios, é o futuro e a forma como decidimos cuidar da nossa juventude, é a mensagem que passamos às próximas gerações: a de que o seu talento importa, que os seus sonhos têm espaço, que o país está disposto a correr ao lado deles. Um estádio cheio de jovens, de energia e de esperança é um símbolo poderoso de um país que acredita em dias melhores.
Por: Luís Caetano








