Por onde anda o mérito e as pessoas de mérito? Onde estão aqueles que, por merecimento próprio e excelência pessoal, brilham e impactam positivamente a vida das pessoas e das suas comunidades? Pessoas que, diariamente, alcançam os mais altos níveis da sua profissão e actividade sem dependerem de cunhas, favores de “titios” ou, em alguns casos, sem terem de passar pelo famigerado teste do sofá.
Por onde andam as pessoas que fazem, de facto, acontecer a nossa Angola todos os dias, com brio, profissionalismo e honestidade? Pessoas que, contrariando uma maré enorme de desesperança, continuam a manter viva uma atitude optimista e inspiradora.
Onde está quem tem o mérito de dar o melhor de si diariamente, resistindo às várias tentações de se desviar do caminho, de corromper ou de se deixar corromper? Onde estão aqueles que resistem à tentação de abandonar o barco e repetir a velha frase que nos enterra todos os dias, “isso é Angola”, expressão que legitima maus hábitos e costumes, que autoriza, por exemplo, deitar lixo na via pública, desrespeitar os mais velhos ou dar “gasosa” a quem deveria ser guardião da honra e da sensatez.
Por onde andam os intelectuais que deveriam ser a nossa fonte de conhecimento e sabedoria? Aqueles que nos deveriam dar aulas públicas e gratuitas de saber viver; que nos deveriam ensinar a amar o conhecimento, a ciência e a técnica, em vez de nos afundarmos em distrações infinitas e sem valor acrescentado.
Onde estão os kotas, guardiões da moral, da ética e dos bons hábitos e costumes, que nos deveriam ensinar a amar a nossa terra, a ter honra e dignidade, a compreender o que é amar verdadeiramente a nossa pátria e a nossa gente? Em vez disso, vemos muitos desesperadamente a idolatrar a casa do vizinho, que, tal como a nossa, também tem problemas, com a diferença de que, lá, os kotas ensinaram os mais novos a amar a sua terra pelo exemplo.
Por onde andam os dikotas da banda, aqueles que desde cedo aprendemos a admirar e respeitar, que ninguém ousava desobedecer? Aqueles que, quando o pai ou a mãe não estavam por perto, nos chamavam à razão, nos ralhavam e nos puxavam as orelhas quando errávamos. Dikotas que eram os verdadeiros guardiões da ética e moral do bairro ou do nosso kimbo.
Onde estão os homens honrados, éticos e moralmente reconhecidos como sábios, com a capacidade incorruptível de fazer sempre o que é certo? Onde estão os estudantes do quadro de honra, que alcançam as melhores notas nas nossas universidades, nos cursos mais exigentes, como as engenharias, matemáticas e as medicinas? Esses deveriam ser os exemplos destacados e apresentados, para que mais jovens se sintam inspirados por inteligências reais, e não artificiais, e para que os nossos canais de comunicação social os apresentem como verdadeiros modelos. Onde estão as nossas histórias de sucesso? As histórias de jovens que acreditaram e que, mesmo tendo nascido e crescido nos bairros mais recônditos, nos musseques ou nos guetos, venceram com honestidade e honra.
Onde estão os sonhadores que nos fazem sonhar com as suas histórias inspiradoras e nos levam a acreditar que é possível, que devemos sonhar e que, independentemente das circunstâncias, cabe a cada um de nós escolher o melhor caminho a seguir. Por onde andam os nossos escritores, autores, criadores e fazedores de arte, que nos ensinam a apreciar o belo e o imaginário? Aqueles que nos ajudam a interpretar o invisível, a tornar o impossível em algo palpável e real, levando-nos a viajar pelas profundezas do nosso subconsciente criativo e produtivo.
Onde estão os nossos desportistas de sucesso, os nossos campeões e medalhistas, aqueles que nos fizeram sorrir, chorar e vibrar de alegria? Por onde andam os profissionais das diversas artes e ciências, os que dominam a medicina e curam os doentes das mais variadas patologias; aqueles que fazem longos turnos, em condições muitas vezes precárias, e que não recusam atender um paciente, mesmo quando faltam meios técnicos e medicamentos?
Onde estão os agentes da ordem que exercem a sua função com honra e brio, que recusam a gasosa, que protegem e respeitam o cidadão e cumprem a lei em todas as circunstâncias? Onde estão os candongueiros que conduzem os nossos “azulinhos” com segurança e cuidado, que respeitam as regras de trânsito, exigem o uso do cinto de segurança e zelam pelos seus passageiros?
Onde estão os comerciantes honestos, que fazem os seus negócios dentro da lei e resistem à tentação de enganar o próximo, mesmo quando as circunstâncias lhes são favoráveis? Onde estão os nossos homens e mulheres de honra? Por onde andam os servidores que defendem a bandeira com honra, que respeitam a farda como símbolo de uma nação que merece ser honrada e respeitada? Onde estão os homens e mulheres que honram a sua pátria e o seu povo, que não cospem diariamente nesta terra já tão sofrida e que tanto precisa de cada um de nós? Onde estão aqueles que têm obra feita e comprovada?
Os que não ficaram apenas pelo palavreado, mas transformaram ideias em prática concreta e visível? Por que razão continuamos a dar palco a papagaios cheios de teorias, mas vazios de obra? Urge dar espaço a quem faz ou fez acontecer. Chega de tudólogos e achistas que vivem de fantasias, afastam o mérito e destroem a competência de quem trabalha seriamente. Urge encontrar e destacar os nossos homens e mulheres de honra.
Urge apresentar à sociedade aqueles que, pelo seu exemplo diário, fazem esta nação avançar. Urge parar de dar destaque ao fútil, à distração oca, à banalidade e aos escapismos virtuais, e passar a valorizar quem pode inspirar os mais jovens com exemplos reais, práticos e construtivos. Urge deixar de patrocinar a futilidade e começar a valorizar o que nos une, nos faz crescer, evoluir e nos torna homens e mulheres melhores.
Urge encontrar os nossos pequenos, médios e grandes heróis, aqueles que, com coragem, superação e boas acções, transformam o nosso dia-a-dia e nos fazem voltar a sonhar e a acreditar nesta nação maravilhosa.
Por: OSVALDO FUAKATINUA








