Recentemente, começou a circular nas redes sociais um vídeo curioso. Brasileiros a testarem aquilo que chamavam de “sobremesa angolana”. Para muitos, era novidade. Para nós, era memória. Falavam da famosa areia. Aquela mistura simples de trigo, manteiga, açúcar e, quando a sorte ajudava, leite em pó. O nome vinha do aspecto. Depois de bem misturada e levemente torrada, ficava com textura de areia doce. Não era prato de restaurante.
Era prato de infância. Ver aqueles vídeos fez-me viajar no tempo. Lembrei-me dos amigos de infância da Vila Alice. Das tardes em que decidíamos fazer areia quase como quem organiza um grande evento. Um trazia o trigo. Outro conseguia açúcar.
Alguém aparecia com manteiga. Se houvesse leite em pó era luxo. Juntávamos tudo na cozinha da casa de alguém, misturávamos com entusiasmo, provávamos antes do tempo, ríamos, discutíamos quem mexia melhor. E depois sentávamo-nos ali, a comer aquilo como se fosse a melhor sobremesa do mundo. E era. Não pelo sabor apenas, mas pelo momento.
Pela partilha. Pela sensação de que estávamos a construir algo juntos, mesmo que fosse só um canudo, feito de papel, cheio de “areia”. Fez-me lembrar também os intervalos à porta da escola. O pirulito, a estica, a queijada, a paracuca, as pilinhas e tantas outras pequenas coisas que marcavam o dia. Não eram apenas doces. Eram símbolos de uma fase leve da vida. Depois de ver os vídeos, a Joana fez areia para nós em casa.
Colocou numa taça e apresentou aos miúdos. Eles provaram e adoraram. Para eles era novidade. Para nós era reencontro. Percebi então que os sabores da infância não são apenas receitas. São memórias afectivas. São momentos que ajudam a formar identidade. A areia não era apenas trigo e açúcar.
Era criatividade num tempo simples. Era amizade misturada com manteiga. Era alegria servida em colheradas. Hoje falamos muito de experiências sofisticadas, de restaurantes diferentes, de novidades importadas.
Mas há uma riqueza enorme nas coisas humildes que nos ensinaram que a felicidade pode ser construída com pouco. É isso levá-nos a reflectir Que memórias simples estamos a criar hoje? Que sabores, que momentos, que pequenas “festas” os nossos filhos vão recordar com brilho nos olhos? Porque no fim, não são as coisas caras que mais marcam.
São os momentos partilhados. São as gargalhadas sem filtro. São as receitas improvisadas com amigos que fazem da simplicidade um tesouro. Que nunca percamos a capacidade de valorizar o simples. Porque muitas vezes é aí que mora a verdadeira doçura da vida.
Por: LÍDIO CÂNDIDO “VALDY”
N’gassakidila.








