A língua pode ser um factor de identidade de uma pessoa (idiolecto), de um grupo (cronolecto, sociolecto), bem como de uma região ou nação (dialecto, idioma). Estes traços identitários podem ser evidenciados por intermédio do folclore, ou seja, oratura (tradição oral), literatura, filmes e músicas, assim como de outras manifestações culturais e artísticas.
Foi o não dito no ano passado a alguns críticos, a fim de salvar um equívoco, relativamente à música intitulada ‘Melhor Amigo’, da cantora Nair Nany, que, para muitas fontes, foi a canção angolana mais reproduzida, interpretada e com mais trendnas plataformas digitais em 2025. ‘Rompeu’ os limites de 1 246 700 quilómetros quadra dos, tornando-se num fenómeno lusófono, especialmente no Brasil.
Apesar do sucesso, a música enfrentou críticas do público brasileiro, fruto de um ruído linguístico por parte daqueles que in compreenderam o “Jesus está lá” e puseram em causa a mensagem a nível escriturístico, tendo alguns intérpretes corrigido para “Jesus está”.
O ruído (a palavra “lá”) é um locativo, resultado de uma construção popular em Angola, que desempenha uma função enfática ou de realce na frase, não de um advérbio de lugar ou complemento circunstancial.
De acordo com o Dr. Peres Sassuco, especialista em Linguística Bantu, esta construção frásica no português em Angola tem influência das línguas da região Sul do País, como o umbundu e o olunyaneka.
Os falantes do umbundu e olunya neka traduzem literalmente as es truturas dessas duas línguas para a noção do português. Temos, a tí tulo de exemplo, “Nhihë ko” e “ndi landeleko” no umbundu, traduzidos literalmente: “me dá lá” e “me compra lá”.
A palavra “lá”, no contexto da música, tem a função de um locativo enfático, típico de algumas línguas do Sul do País (ko). Vale realçar que esta construção é intencional.
Em Angola, os cultivadores das músicas populares como semba, kizomba, kuduro, rebita e outras utilizam como estilo na composição os registos popular e familiar, a influência das línguas regionais, os traços da oralidade e a agramaticalidade.
A má correcção linguística nesses géneros pode, nalguns casos, obstruir a intenção estilística e implicar um desconhecimento dos nossos estilos musicais.
Por: SOUSA INGLÊS








