O futebol nasce como uma festa, uma celebração colectiva onde a bola corre mais rápido do que as fronteiras, onde o grito de golo apaga diferenças e onde, por noventa minutos, um continente inteiro pode respirar no mesmo ritmo.
Ou pelo menos deveria ser assim. A trigésima quinta edição do Campeonato Africano das Nações, realizada em Marrocos, tinha tudo para reafirmar essa essência, com estádios modernos, organização elogiada, num país apaixonado pelo futebol e 24 selecções, entre elas Angola, prontas para escrever mais um capítulo da história do futebol africano. Mas a festa, infelizmente, ficou com manchas difíceis de ignorar.
É natural e até legítimo que quem organiza sonhe com a vitória. O anfitrião quer ganhar, quer fazer história em casa, quer erguer o troféu diante do seu povo. Isso faz parte do futebol, o que não faz parte, o que nunca pode fazer parte, é vencer a qualquer custo.
Quando o apito deixa de ser neutro, quando o VAR deixa de ser ferramenta de justiça para se transformar em instrumento de conveniência, o jogo perde a essência. E sem essência, o futebol deixa de ser festa.
Desde os primeiros jogos dos Leões do Atlas, denominação da selecção de Marrocos, os sinais estavam lá, visíveis para quem queria ver. Eu e muitos outros jornalistas desportivos alertamos, vezes sem conta, para a falta de lisura nas decisões da arbitragem e do vídeo-árbitro. Não se tratou de um lance isolado, de um erro humano compreensível na velocidade do jogo.
Foram situações repetidas, quase sistemáticas, sempre inclinadas para o mesmo lado, sempre a beneficiar os anfitriões e a penalizar os seus adversários. A credibilidade da competição começou ali, silenciosamente, a escorrer pelo ralo.
O mais grave é que tudo isso aconteceu sob o olhar atento, ou distraído, de Patrice Motsepe, presidente da CAF, com presença assídua nos estádios em todos os jogos de Marrocos.
A pergunta impõe-se: como foi possível que tantas decisões controversas passassem sem um posicionamento firme da entidade máxima do futebol africano? A falta de rigor da CAF contribuiu de forma decisiva para o ambiente de desconfiança que se instalou e que culminou numa final que ficará marcada não pela qualidade do futebol, mas pela vergonha. A final do CAN deveria ser o ponto mais alto da festa.
O momento em que o continente se reconhece, se orgulha e se une. Em vez disso, o mundo assistiu a um espetáculo lamentável: decisões inclinadas do árbitro da República Democrática do Congo, intervenções selectivas do VAR e episódios que ultrapassam o absurdo, como a retirada da toalha do guarda-redes senegalês Édouard Mendy. Um detalhe para alguns, mas um gesto simbólico de enorme gravidade.
A toalha não é adereço, é instrumento de trabalho, serve para limpar as luvas, o rosto, o suor. Retirá-la, com o quarto árbitro, os assistentes e até as forças de segurança a fazerem vista grossa, foi simplesmente vergonhoso. Não aprovo, e fui contra, a retirada da selecção do Senegal do campo.
O futebol deve ser decidido dentro das quatro linhas. Mas também é preciso dizer que quem tem talento é humano, e humanos, mesmo os grandes campeões, também não resistem. Sadio Mané, símbolo maior desta geração senegalesa, tomou decisões difíceis, mas felizmente justas para o futebol.
O Senegal voltou, jogou e venceu. Venceu não apenas o jogo, mas um sistema que parecia trabalhar contra si. Observei ainda imagens que doeram ao futebol. A expressão do presidente da FIFA, Gianni Infantino, incapaz de esconder a tristeza pela derrota de Marrocos, foi um retrato infeliz para quem deveria representar a neutralidade e a universalidade do jogo. Compreendo, por outro lado, o comportamento do rei de Marrocos, talvez nem devesse ter ido à cerimónia de premiação.
Ao recusar fazer a entrega do troféu ao capitão do Senegal, foi um gesto forte, carregado de simbolismo, que revela frustração, orgulho ferido e, acima de tudo, a dimensão política que infelizmente ainda contamina o futebol africano.
No fim, fica a pergunta que ecoa mais alto do que qualquer apito: que futebol queremos para África? Um futebol de bastidores, de pressões, de decisões inclinadas? Ou um futebol que honre o talento imenso do continente, a paixão dos seus povos e a história de uma competição que já deu tanto ao mundo? O CAN deveria ser a montra, o exemplo e sobretudo festa, mas em Marrocos, foi um palco de contradições. Houve brilho em campo, houve talento, houve emoção, mas houve também sombras que não podem ser ignoradas pelos verdadeiros homens do futebol.
Por: Luís Caetano








