Há datas que se comemoram e há aquelas que se de vem comemorar para sempre. O 4 de Abril pertence, em nosso entender , à segunda categoria. Não é por que o poder assim o decrete, é mais pelo valor que a data simboliza: o fim de uma era tortuosa para os angolanos.
A imagem de campos mina dos, dos deslocados, o choro de cidadãos que viram de perto os seus parentes a partir, o silêncio das aldeias esvaziadas pela força dos canhões, ainda continua viva na memória dos sobrevivente .
Vinte e quatro anos depois, esta da ta não é um troféu de ninguém, é pois, herança de todos, de Cabinda ao Cunene, do Lobito ao Luau. Importa, antes, avivar a nossa memória para também dar vida a nossa história.
Em Janeiro de 1975, os Acordos do Alvor, que definiram o processo da independência de Angola e estabeleceram um governo de transição partilhado entre o MPLA, a FNLA e a UNITA já se anunciavam a transição, unidade e eleições.
A promessa durou meses. O país entrou em guerra antes de completar o primeiro ano de vida como Estado soberano, com cubanos e soviéticos de um lado, sul-africanos e norte-america nos do outro, e angolanos a mor rer dos dois lados nas trincheiras.
Em 1991, os Acordos de Bicesse, assinados a 31 de Maio, em Portugal, por José Eduardo dos San tos e Jonas Savimbi, sob mediação portuguesa e observação dos EUA e da ex-URSS, trouxeram esperança real: eleições livres, desarmamento, democracia multipartidária.
Em Setembro de 1992, os angolanos votaram. José Eduardo dos Santos venceu a primeira volta com 49,57% dos votos; Jonas Savimbi ficou em segundo com 40,07%. A segunda volta nunca se realizou. Savimbi rejeitou os resultads.
O país voltou à guerra. Uma guerra que, nos dezoito meses seguintes, matou mais gente do que os dezasseis anos anteriores de conflito. Em 1994, o Proto colo de Lusaka, assinado a 20 de Novembro, na capital da Zâmbia, pelo Ministro Venâncio de Moura pelo Governo e por Eugénio Ngolo Manuvakola pela UNITA, sob mediação da ONU, ensaiou nova paz.
Savimbi assinou; e faltou à cerimónia. Em 1998, a guerra regres sou pela quarta vez. Neste percurso, dois homens de finiram o destino de Angola. José Eduardo dos Santos, herdeiro de Agostinho Neto, formado na contenção e na paciência do Esta dista de longa distância, tentou a paz em Bicesse, tentou em Lusaka. Era zeloso quando o assunto fosse à Paz.
Do outro lado, estava Jonas Savimbi muito mais voltado para aquisição do poder. A 22 de Fevereiro de 2002, no Lucusse, no Moxico, Savimbi tombou em combate. Com ele, morreu a guerra.
Nos dias que se seguiram, JES declarou ao país com a serenidade que sempre o definiu: «A paz chegou para sempre.» E o que ficou na memória dos que o rodeavam nessa hora era simples e definitivo: « Nem mais um tiro, temos de preservar os homens vivos e negociar a Paz.» O Comandante-em-Chefe tornava-se Arquitecto da Paz.
A 4 de Abril de 2002, no Palácio dos Congressos em Luanda, os generais Armando da Cruz Neto, pelas FAA, e Abreu Muengo «Kamorteiro», pela UNITA, assinaram o Me morando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, o documento que ficou para a história como o Memorando do Luena, e que “puxou” a cortina final sobre quase quatro décadas de guerra. Não foi um documento qualquer.
Foi a “certidão de óbito” de um conflito que custou, segundo as Nações Unidas, cerca de um milhão de vidas, 4,1 milhões de deslocados internos e mais de 400 mil refugiados nos países vi zinhos. Um país coberto de 15 milhões de minas terrestres. Instituições por construir do zero.
Uma geração inteira que não conheceu outra infância senão a da fuga aos canhões. Este é o peso real do que se assinou naquele dia. Este é o custo do que hoje se celebra.
Há, contudo, uma verdade que surge enquanto lição de certos conflitos e que nos parece importante realçar: Diz-se por vezes, para alcançar a paz, muitas vezes é necessário fazer a guerra, não por gosto da violência. Mas porque há adversários que usam a mesa de negociação como extensão do campo de batalha.
Angola aprendeu isso da forma mais cara possível. Bicesse falhou. Lusaka falhou. Não porque o Governo não cumprisse: falhou porque do outro lado havia quem assinasse um acordo de manhã e, no vespertino, negava-se a cumprir.
Quando José Eduardo dos Santos declarou, em 1998, com a serenidade que o definia, «parece que vamos continuar a guerra para conseguirmos a paz», não estava a escolher a violência por prazer. Estava a reconhecer, com a lucidez que os factos impunham, que a paz durável não se mendiga de quem nunca a pretendeu honrar.
O peso do tempo deu-lhe razão. Dito isto, há que ser directo quanto ao que sucede todos os anos nesta data. Há vozes que não celebram o 4 de Abril: instrumentalizam no. Que não honram os mortos: exploram-nos. Que não reconstroem a memória da guerra: reciclam-na como munição partidária.
Surgem em cada ano com a pontualidade de quem tem ca lendário, não consciência: per fis sem rosto, análises sem prova, insinuações sem responsabilidade. Recordam o sofrimento do povo angolano como quem fala de uma ferida alheia que convém manter aberta.
Este acto sinuoso e moralmente desaconselhável não merece resposta detalhada. Merece apenas o que a história invariavelmente concede a quem faz da dor alheia bandeira própria: o esquecimento.
Vinte e quatro anos de paz o país segue o seu curso normal: rumo ao progresso. Estradas que ligam províncias que a guerra separou. Escolas onde havia campos mina dos. Cidades que respiram, constroem e crescem. Uma economia que, apesar dos seus desequilíbrios, existe e funciona, porque a paz viabiliza.
É a paz que torna possível o investimento. É a paz que abre as portas do comércio, da educação, da saúde, da reconstrução e reconciliação nacional. É a paz que transforma Angola dia a-dia.
O caminho até ao desenvolvimento não começa nos recursos naturais, nem nas infra-estrutu ras, nem nos planos de governação: começa aqui, nesta data, neste legado. A paz é o maior activo de Angola. Preservá-la, aprofundá-la e traduzi-la em bem-estar para cada angolano é a missão de todos.
Por: DÉLCAR GAMA








