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KADHAFI

Jornal Opais por Jornal Opais
16 de Março, 2018
Em Opinião

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Faz poucos dias, aqui em Luanda, num destes domingos de sol abrasador, em minha casa, tive uma surpresa agradável. Sem contar, enquanto aguardava pelo funge de peito alto (é assim que os puros malanjinos pitam depois da missa dominical), um grupo de velhos amigos bateu a porta e, para meu espanto, entre eles estava o Kadhafi, um radialista que não via nem o ouvia, já lá vão mais de 30 anos.

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Como manda a regra nas terras da Palanca Negra, logo-logo demos um grande kandando, as vozes embargaram e como não poderia deixar de ser, sem pedir licença, as lágrimas invadiram nossos rostos num manto de recordações e saudades que o tempo, felizmente, não conseguiu nem conseguirá jamais apagar. Gonçalo José Tomás ou simplesmente Kadhafi, é um Malanjino de gema, do bairro da Kanâmbua, hoje já com 56 cacimbos vividos e que, em tempos idos, na Rádio provincial deu vida e animou sobremaneira os serões da banda. Se quis o destino que ele tivesse nascido deficiente físico (paralisia dos membros inferiores), Deus conseguiu dar-lhe uma voz portentosa e inteligência bastante, que rápido transformou-lhe num dos melhores e mais completos locutores que a rádio Malanje conheceu. Os seus programas gozavam de uma audiência fora do comum. Ninguém, quase ninguém mesmo, após o noticiário das 20 da RNA, perdia o Kadhafi aos microfones, unindo a palavra e a música numa mescla sem precedentes, bem à maneira do já histórico programa Boa Noite Angola. O homem não brincava em serviço. Desde o 601, a sungurada batia prá caraças, sabia meter sossoya, zangular as ketas muangolé, seleccionar os ritmos da terra, tornar as noites malanjinas verdadeiros saraus culturais capazes de fazer esquecer as malambas do dia a dia. No entanto, a sua fuma não se resumia ao universo do radialismo. Também era o rei dos conselhos. Os mais jovens, para engatar damas, tinham de beber dos seus ensinamentos. Era ele que passava as dicas, escrevia as cartas de amor e, quando assim acontecesse, dificilmente se apanhava tampa. Nos anos 90, por imperativos da guerra, fixou residência em Luanda.Na Rádio Nacional de Angola encontrou guarida e lá emprestou um pouco do seu saber e dedicação. Infelizmente, por motivos que prefere guardar em segredo, deixou a Rádio, a casa que diz ser a sua universidade da vida, a sua maior paixão de sempre. Ainda assim, apesar das suas limitações físicas, como homem que se assume socialmente útil e jamais fútil, buscou e encontrou nos bombeiros a sua nova trincheira laboral, Instituição onde também soube e pode dar o seu contributo à Nação. O Kadhafi, agora está em casa, mas não desespera. Tem saúde e esperança, pois acredita que melhores dias virão. Para já, a sua maior preocupação é um meio de locomoção, uma mota ou um carro adaptado que lhe permitam ser mais visto e melhor percebido. O domingo passou, a fubada esteve no ponto. Somente a conversa não acabou porque, certamente, outras oportunidades surgirão para maboçar os assuntos do nosso dia a dia, da nossa terra que não se esgotam, nunca!

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