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Entre o silêncio e o grito: o angolano diante da sobrevivência

Jornal OPaís por Jornal OPaís
12 de Janeiro, 2026
Em Opinião

Há silêncios que falam mais alto do que qualquer discurso. Não são silêncios de tranquilidade, mas de cansaço. Silêncios que caminham pelas ruas, que se comprimem nos transportes sobrelotados, que esperam em filas longas e desgastantes. Na sociedade angolana contemporânea, o silêncio tornou-se uma forma de linguagem social, uma resposta aprendida num quotidiano onde falar nem sempre produz escuta.

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O angolano acorda antes do nascer do dia. Quando o sol surge, muitos já carregam no corpo a fadiga de quem vive em esforço permanente. Viver tornou-se um exercício contínuo de adaptação, marcado pela incerteza e pela instabilidade.

Tal como diz Zygmunt Bauman, em «Vida líquida», “a vida moderna perdeu solidez, oferecendo cada vez menos garantias e exigindo dos indivíduos uma capacidade constante de reajuste. O futuro torna-se curto, improvisado, frequentemente adiado”. Este silêncio não é vazio. Está carregado de pensamentos não ditos, de sonhos interrompidos, de projectos suspensos no tempo.

É um silêncio atento, prudente, que observa antes de agir. Entre o que se sente e o que se pode dizer, o angolano aprende a medir palavras, a conter gestos, a sobreviver. Entretanto, o grito existe. Vive contido, interiorizado, muitas vezes invisível. Nem sempre se expressa em protesto aberto. Surge, por vezes, em gestos de revolta silenciosa, em atitudes de descrença, em desistências discretas. É o grito de quem já falou demasiado sem ser ouvido.

A sobrevivência assume-se como centro da vida social. Já não se vive plenamente; sobrevive-se. Sobrevive-se vendendo na rua, improvisando soluções, reduzindo expectativas. A vida transformase numa sucessão de adaptações forçadas.

Navegando nas ideias de Pepetela, particularmente em «A geração da utopia», percebe-se que o quotidiano angolano é marcado pela espera, pelo desencanto e pela lucidez crítica, mas também por uma resistência silenciosa que insiste em permanecer. Não há romantização possível da precariedade. Existe dignidade, sim, mas constantemente ferida. Existe força, mas cansada.

O povo sustenta-se numa resistência quase invisível, construída na repetição da queda e do reerguer. Uma resistência que raramente aparece nos discursos oficiais, mas que mantém a sociedade em movimento. O silêncio social nasce também da ausência de escuta. Quando falar não gera resposta, o cidadão aprende a calar. Quando as promessas se acumulam sem efeito, instala-se a desconfiança. Assim, o silêncio deixa de ser escolha e passa a ser mecanismo de defesa.

Ainda assim, o grito persiste. Habita os jovens sem horizonte claro, os pais sem meios suficientes, as mães que resistem em silêncio, os idosos esquecidos pelo tempo. É um grito contido, que questiona a própria condição de existir apenas para resistir. Entre o silêncio e o grito constróise uma identidade marcada pela ambiguidade. O mesmo povo que suporta observa. O mesmo cidadão que cala reflecte.

A esperança não desaparece, mas torna-se cautelosa, quase tímida, consciente da fragilidade das promessas. Tal como sugere Bauman, vive-se num tempo em que tudo é instável, inclusive a esperança. Este texto não oferece respostas prontas.

Sugere escuta. Escutar o silêncio enquanto sinal social. Escutar o grito antes que se transforme em ruptura. Porque sociedades que ignoram os seus silêncios acabam, inevitavelmente, surpreendidas pelos seus gritos.

Entre o silêncio e o grito, o angolano continua. Não porque desistiu, mas porque ainda espera. Espera por um tempo em que viver não seja apenas resistir. Espera por uma sociedade onde a voz não precise ser contida para garantir a sobrevivência. Até lá, permanece. Em silêncio por fora, em grito por dentro, sustentando com o próprio corpo o peso de um país que ainda aprende a ouvir-se.

Por: Reis Adriano Simão

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