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Entre a celebração e a necessidade de maturidade colectiva

Jornal OPaís por Jornal OPaís
30 de Março, 2026
Em Opinião

O mês de Março reafirma-se, ano após ano, como um período de exaltação da mulher, da sua força, da sua resiliência e do seu contributo inquestio nável para a construção da sociedade. Ao longo deste mês, diversas actividades foram promovidas, desde debates, palestras, campanhas institucionais e eventos comemorativos, com o propósito de valorizar o papel da mulher angolana e reforçar a sua centralidade no desenvolvimento do país.

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Contudo, ao fazermos um balanço crítico do encerramento do denominado “Março Mulher”, impõe-se uma reflexão mais profunda e, por vezes, desconfortável. Foi notório o fraco envolvimento das próprias mulheres em muitos destes eventos, bem como algum descuido na organização de iniciativas que deveriam, à partida, ser referências de excelência e compromisso. Não se pode ignorar o mérito das instituições e organizações que se empenharam em assinalar a data.

Porém, em muitos casos, observou-se uma desconexão entre a relevância do tema e a qualidade da execução. Eventos com baixa adesão, pouca mobilização e, em certos casos, insuficiente profundidade nos debates levantam uma questão essencial.

Estamos, de facto, a tratar as questões da mulher com a seriedade e maturidade que exigem? A fragilidade organizativa de algumas iniciativas pode ser interpretada como um reflexo de algo mais profundo, uma certa falta de maturidade colectiva para lidar com a dimensão, a complexidade e a força que a mulher representa no país e no mundo. Celebrar a mulher não deve ser um acto simbólico ou protocolar, deve ser um compromisso estruturado, consistente e orientado para resultados concretos.

O silêncio, que também fala, revelou-se no reduzido envolvimento de mulheres em eventos concebidos para elas próprias é, por si só, um sinal que não pode ser ignorado. Pode traduzir cansaço, descrença, falta de identificação com os conteúdos apresentados ou até a ausência de políticas e agendas que verdadeiramente representem as suas preocupações reais. Este afastamento deve ser vir como ponto de partida para uma reflexão mais ampla.

Que tipo de espaços estamos a criar para as mulheres? Estão esses espaços alinhados com as suas necessidades, de safios e aspirações? Ou limitam-se a reproduzir discursos formais, distantes da realidade quotidiana? Apesar dos avanços registados, há ainda um longo caminho a percorrer.

Persistem temas estruturais que carecem de debate sério e de intervenção legislativa e institucional efectiva. Entre eles, destaca-se a necessidade de criminalização mais clara e eficaz do assédio moral e sexual, fenómenos que continuam a afectar, de forma silenciosa, milhares de mulheres no contexto laboral e social.

Igualmente relevante é a discussão sobre condições de trabalho mais dignas, incluindo a necessidade de maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal, com especial atenção ao descanso da mulher, que, em muitos casos, acumula responsabilidades familiares e profissionais de forma desproporcional.

Estas não são questões marginais, são causas estruturantes, que exigem coragem política, mobilização social e, sobretudo, continuidade no debate. Mais do que celebrar, é preciso transformar e o encerramento do mês de Março não deve significar o fim da reflexão. Pelo contrário, deve marcar o início de um compromisso mais sério, mais estruturado e mais exi gente com a causa feminina.

É necessário ultrapassar a lógica da celebração pontual e avançar para uma agenda contínua de valorização da mulher, assente em políticas públicas eficazes, organizações comprometidas e uma sociedade mais consciente.

A mulher angolana continua a ser sinónimo de força, resiliência e determinação. Mas essa força não pode continuar a ser testada pela ausência de respostas estruturais ou pela superficialidade de certas abordagens.

Há ainda muito por dizer, mui to por debater e, sobretudo, muito por fazer. Porque valorizar a mulher não é apenas reconhecê-la em Março, significa criar, todos os dias, condições reais para que ela viva, trabalhe e lidere com dignidade, segurança e igual dade.

Por: Yona soares

*Advogada | Especialista em Gestão de Recursos Humanos

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