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Domeste Vicente e a textualidade digital: a poética da resistência no palco das redes

Jornal OPaís por Jornal OPaís
27 de Agosto, 2025
Em Opinião

Domeste Vicente, pseudónimo de Domingos Vicente, figura como um dos mais instigantes autores da nova geração literária benguelense, precisamente por investir o seu labor criativo no território ainda contestado da textualidade digital. A sua obra vive e floresce nas redes sociais, onde palavras antes restritas aos livros ganham novas margens, mais fluidas e interactivas.

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O autor não é um excluído da edição formal, mas um resistente: alguém que conscientemente escolhe a virtualidade como território de circulação, tornando o efémero da timeline num arquivo pulsante.

A sua poesia e prosa configuram-se como práticas de insurgência estética e política. Não apenas por denunciarem injustiças ou emocionarem com lirismos despretensiosos, mas por recusarem o condicionamento editorial e a canonização literária tradicional. Domeste escreve “para ser lido agora”, num “aqui e agora” em que o poema é também intervenção, o conto é também grito, o soneto é também epitáfio.

A sua obra é escrita de um lugar inclassificável, e é aí que reside a sua força. A presença marcante da oralidade, do lirismo filosófico e da crítica social nos seus textos evidencia uma hibridez estilística rara. Em “As Sombras do Rio”, por exemplo, a natureza não é apenas paisagem: é também metáfora do inconsciente colectivo. O rio surge como fluxo ancestral e místico, onde a “sagrada revelação” é murmurada em noites de relâmpagos.

O autor estrutura esse poema em versos de respiração profunda, mesclando introspecção e imaginação mítica, como se o tempo da escrita seguisse o mesmo compasso do tambor ritual que anuncia verdades escondidas. Domeste é também um hábil satirista. Em “Comédia Bíblica)”, reescreve o Gênesis com ironia e agudeza, questionando os fundamentos metafísicos e sociais da criação humana.

A sátira final , “E assim, meus queridos, nasceram os africanos”, não é gratuita; é denúncia de um sofrimento sistematizado e naturalizado historicamente. Aqui, o riso nasce do absurdo trágico da realidade africana, onde a dor parece genética, mas é política.

O texto subverte a narrativa bíblica, inscrevendo nela o sarcasmo de quem foi condenado a “gostar de sofrer”. Em textos como “A Imensidão do Tempo” ou “A Vida Não É Uma Escolha”, percebe-se o pulsar de uma lírica existencial, marcada pela angústia de viver e pela aceitação resignada do destino.

A poesia de Domeste, embora intensamente pessoal, nunca abdica do colectivo. Ele escreve para todos os que dançam “na kizomba do tempo”, entre perdas e memórias, entre fracassos e esperanças. É uma escrita de consolo e de denúncia, de harmonia e de fricção.

O seu “Soneto 25” é uma elegante construção de dor amorosa, onde se reconhece a tradição formal europeia (o soneto petrarquista), mas aplicada a uma afectividade contemporânea e abrasiva.

A “mensagem traiçoeira” que chega “como o som d’água doce borbulhando num atalho” é, na verdade, uma miragem: o amor como farsa ou ilusão. Há aqui uma filiação com os poetas malditos, mas com um tempero próprio , um niilismo tropical, cansado e belo.

“No Meu Último Dia” mostra outro vértice do seu estilo: a elegia como acto de afirmação ética. O sujeito lírico, antecipando a sua morte, recusa ser recordado com lamento, pedindo antes que se cantem “as belas histórias”.

Aqui, a poesia torna-se testamento, pedagogia da memória e da dignidade. O corpo morto não é matéria de sofrimento, mas semente de beleza: “não me condeneis pelos mil defeitos, / mas gabai-me por alguma virtude”.

A dimensão político-social da sua poética aparece com força no texto Ana Mabuila Jaz Viva no Túmulo”. A morte da vizinha é um microcosmo da violência estrutural que acomete os corpos negros e femininos em contextos autoritários. O “dono da bala” é, metaforicamente, o dono do país, e o sangue no chão “desenha o mapa de um país” onde “abrir a boca” é crime.

Este fragmento é uma espécie de epitáfio para os inocentes, um auto de acusação que evoca a memória de todas as Anas silenciadas pela brutalidade do poder. No entanto, Domeste também navega pelo campo da ficção simbólica, como demonstra o belíssimo “O Último Tambor de Walimile”, uma narrativa que poderia figurar entre os contos de Mia Couto, Pepetela ou Ondjaki.

A história da jovem Langa, escolhida pelo tambor Nzuri como guardiã espiritual da aldeia, condensa valores da cosmovisão bantu: o som como ligação com os antepassados, a escuta como aprendizagem, a iniciação como processo orgânico e não arbitrário.

“Não apenas com os seus ouvidos, mas com a sua alma”, diz o ancião Olunjanju, esta é a chave da escuta africana, da oralidade como epistemologia. Domeste Vicente inscreve-se, portanto, numa nova genealogia literária que escapa aos velhos filtros do cânone editorial.

A sua obra, embora não compilada em livro, está já arquivada na memória viva das redes, no coração dos leitores que o seguem, nas narrativas que se partilham por WhatsApp, nos prints que circulam como relíquias.

A pergunta permanece: será preciso um ISBN para validar a grandeza de um autor? Ou será que a literatura encontra o seu estatuto no impacto que provoca e nas verdades que carrega? Em tempos em que se impõem filtros algorítmicos e protocolos editoriais de exclusão, Domeste resiste com palavras livres, textos vagabundos, literatura sem gravata. E talvez seja exactamente aí, nessa fronteira entre o sagrado tambor e o like digital, que a nova literatura angolana encontre o seu pulsar mais autêntico.

Por: Fernando Tchacupomba

Referência bibliográfica sugerida:
Vicente, D. ). Fragmentos digitais [posts e textos não publicados]. Disponível nas redes sociais: Facebook.

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