—Sentiste, ilustre, sou forte?! — Sentir o quê, meu caro? — Como falo bem português e uso muitas palavras de difícil com preensão! Até quando falava com aquela dama, admiravas-me mui to, eu vi.
— Enganas-te, meu amigo. Admiraria o quê, exactamente? Ou tal vez admirasse a tua falta de comunicação e a tua inabilidade comunicativa? — Como assim, ilustre?! O teu problema é construíres frases muito fáceis de entender.
Assim, as pessoas nunca te vão respeitar. — Na verdade, o que está em jogo não é o respeito, mas sim a trans missão eficaz da mensagem que desejamos comunicar. — Mas tu já és académico e tens de falar como um verdadeiro académico.
Não podes ser fraco com as palavras. — Sério? E o que é, para ti, um aca démico de verdade? Ensina-me, então. — É aquele que usa palavras cujo significado nem todos conhecem; aquele que fala bem e deixa água na boca enquanto fala.
— É exactamente essa definição que tem contribuído para a de gradação da língua — e de muitos de vós. Atenção: ser académico nada tem a ver com usar palavras invulgares para ludibriar ou para impor respeito.
Quem assim procede é tolo e está muito longe de ser académico. Falar bem não pressupõe engolir um dicionário para confundir quem nos ouve.
O que vos tem faltado, muitas vezes, é humildade comunicativa — isto é, saber baixar a cauda conforme o contexto. Reparaste que, depois de começares a falar, aquela jovem, de quem disseste que gostou de ti, passou a responder apenas com frases curtas? Sabes por quê? — Não! Mas foi porque me viu co mo um bom falante da Língua Por tuguesa.
— Enganas-te outra vez. Foi por que, ao usares palavras cujo significado nem tu próprio dominavas, o melhor mecanismo de defesa dela foi responder apenas com um “sim” ou com um aceno de cabeça.
Isso, na prática, significa: “Pode mos encerrar esta conversa porque não te entendo”. Mauro, comunicar é muito mais do que exibir palavras difíceis. Dizes que, para eu ser um bom académico, devo usá-las.
Sim, uso-as — mas não em to dos os momentos, nem em qual quer lugar. Ainda que não as use, jamais serei um mau académico ou um mau falante da Língua Portu guesa.
Pelo contrário: usando as de forma inadequada, passaria vergonha, como há pouco aconteceu contigo. Comunicar é — lembra-te disto e nunca te esqueças — tornar comum aquilo que desejamos que os nossos interlocutores compreendam. Logo, a jovem de há pouco não entendeu nada do que disseste; nesse caso, não houve comunicação alguma.
Por: GABRIEL TOMÁS CHINANGA









