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Adaptação de professores: um perigo para a educação

Jornal Opais por Jornal Opais
22 de Janeiro, 2025
Em Opinião

É comum, nos debates e discussões sobre educação, ouvir-se dizer que “o professor deve ser formado na disciplina que lecciona (ou pretende leccionar) para que, conhecendo a sua metodologia e didáctica, venha a conduzir o seu ensino e aprendizagem com zelo, brio e esmero”.

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No entanto, este discurso, infelizmente, nem sempre é traduzido ou reflectido na realidade, ou seja, a adaptação de professores ainda é um facto recorrente no nosso Sistema de Educação e Ensino.

Há professores que são formados na especialidade de Matemática, por exemplo, mas não leccionam Matemática, ou melhor, ministram aulas duma outra disciplina (Biologia, História, Geografia, apenas para citar estas) cujas bases e metodologias são, muitas vezes, desconhecidas por eles; há ainda outros professores do ensino secundário que, durante o exercício de suas funções, são convertidos para professores do ensino primário, sem falar daqueles indivíduos (ou diria professores) que dão aulas mesmo não possuindo agregação pedagógica.

Será que saber nadar ou ter barco é motivo suficiente para alguém ser considerado pescador e, curiosamente, seleccionado para falar de pesca? Assim, me perguntava, após um amigo meu, por sinal, formado em Ensino da Sociologia, ter me informado que foi indicado para leccionar a disciplina de Língua Portuguesa, pois o corpo directivo da instituição onde trabalha entendeu, conforme fez saber, que ele se sairia bem com a mesma disciplina, uma vez que o meu amigo possui uma bela escrita e esbanja uma dicção refinada, para não dizer que domina, minimamente, a gramática normativa tradicional.

Ouvindo a conversa, o meu tio professor (que agora se encontra aposentado, após longos anos de serviço à educação) confessou-nos que também já saboreou uma experiência similar, quando esteve no activo, quer dizer, embora tenha sido formado na especialidade de Biologia e Química (professor do 1.º ciclo do ensino secundário), porém nunca chegou a ministrar aulas de Biologia e Química, tudo porque a direcção da escola na qual trabalhou decidiu transformá-lo num professor do ensino primário, atribuindo-lhe assim uma outra vestimenta e perfil.

Naquele instante, não passou por despercebida, portanto, a tristeza reinante no rosto do mais velho, pese embora ele insistia em mascará-la com um sorriso fino e prateado. Sendo um subsistema de ensino sensível e fértil, é claro, o ensino primário dev(e)ia exalar ares de confiança e de segurança, estando sob alçada de profissionais habilitados e especializados na área.

Na verdade, tal facto se aplica também para o ensino secundário e demais subsistemas de ensino. Afinal, é arrepiante assistir às aulas despidas de mínimo de rigor científico-pedágogico didáctico e técnico-metodológico, sobretudo daquelas disciplinas tidas como chaves ou nucleares (Português e Matemática).

Estas aulas improvisadas, “gramaticalizadas” (para Língua Portuguesa), mecanizadas e insípidas são, infelizmente, incapazes de produzir alunos críticos reflexivos e criativos, senão órfãos de ideias e argumentos. Talvez seja oportuno falar da minha professora de Biologia da 8.ª classe, uma senhora bué temida e arrogante, que, depois dela, ninguém mais entrava na sala, exceptuando mosca e vento (risos).

Estava sempre com a cara trancada que até parecia que fez inimizade com o sorriso; fazer pergunta ou apresentar dúvida, nas suas aulas, era tido como um acto heróico e histórico, pois raramente tínhamos voz e vez.

E o mais curioso no meio de tudo isso, entretanto, é que ela nos obrigava decorar milimetricamente os conceitos e conteúdos de Biologia, sob pena de sermos “chumbados”. Todavia, o tempo, com a sua velha mania de descortinar tudo e todos, fez-nos saber que a nossa professora não era, afinal de contas, especialista em Ensino da Biologia ou ainda bióloga, e sim farmacéutica (formada em Farmácia).

E como ela não dominava mesmo Biologia, inclusive o ABC da Didáctica (permitam-me o exagero), teve de recorrer, inúmeras vezes, à arrogância para salvaguardar a sua incompetência. Aliás, a arrogância não é senão a tradução da incompetência do ser humano.

É importante que os gestores escolares percebam “de uma vez por todas” que, quando se banaliza o professor, o aluno é, quase sempre, o mais afectado e prejudicado. Na verdade, a banalização da classe docente é o caminho menos indicado pára atingir-se a tal famosa e aclamada qualidade de educação.

O professor, como se costuma dizer, é o único profissional que forma todos os profissionais, não há quem que não tenha passado nas mãos do professor. Assim sendo, sacrificar a figura do professor com amadores, curiosos, oportunistas e paraquedistas (é necessário citar os nomes) é arrastar o presente e o futuro do país ao asfalto da mediocridade e anemia intelectual.

A educação, digo, não se compadece com paraquedismo e amadorismo. Pelo contrário, fazse com pessoas sérias e especializadas na matéria (entenda-se Ciências da Educação).

Desde já, a minha vénia a todos aqueles professores adaptados (com formação científico pedagógica e sociodeontológica) que, apesar da realidade não ter sido gentil e doce com eles, ainda assim, fazem das tripas coração, isto é, apostando na formação contínua, capacitação académico-profissional, pesquisa, investigação, estudo, leitura, enfim, conferindo, desta maneira, alguma luz às suas práticas pedagógicas.

 

Por: JOAQUIM AUGUSTO ADOLFO

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