Em Angola, a palavra nunca foi leve. Nunca foi distração. Nunca foi apenas som. Entre nós, dizer é assumir. Falar é comprometer-se. Por isso, desde os tempos antigos, os mais velhos ensinavam: a palavra não se solta sem pensar, porque depois de dita já não volta. Nas culturas bantu, a palavra é força vital.
Ela carrega nkisi (energia), transporta intenção e produz efeitos reais no tecido da comunidade. Um provérbio kimbundu ensina: “A palavra é como a flecha: depois de lançada, não volta.” Por isso, o ancião de uma comunidade falava devagar, pesava cada sílaba, escolhia o momento certo. Não porque lhe faltasse o que dizer, mas porque sabia que a palavra cria caminhos e também pode abrir feridas.
Quem fala revela quem é. Quem escuta nunca permanece o mesmo. O linguista francês Émile Benveniste já afirmava que falar é assumir uma posição no mundo. Não há discurso inocente, toda fala situa quem fala e transforma o espaço social onde ecoa. Outro provérbio lembra: “A boca não tem chave, mas guarda segredos.”
Isso significa que a palavra é livre, mas a responsabilidade por ela é pesada. Falar sem sabedoria é co- locar em risco a harmonia de um grupo. Na tradição angolana, a palavra organiza a vida social. É por meio dela que se resolvem conflitos, que se transmitem normas, que se preserva a memória.
O soba não governa pela força, mas pelo discurso equilibrado. Quando a palavra do soba perde credibilidade, a autoridade desmorona. É por isso que se diz também: “A palavra do mais velho constrói a aldeia.” A colonização tentou quebrar essa lógica. Silenciou línguas, desvalorizou discursos locais, impôs outras palavras para nomear o mundo. No entanto, a palavra africana resistiu.
Escondeu-se nos provérbios, nas canções, nas histórias contadas à noite, nos ditados repetidos pelas avós. A palavra tornou-se refúgio e resistência. Um provérbio umbundu afirma: “Quem não escuta o mais velho, aprende com a dor.” Aqui, escutar é um ato de sabedoria. A palavra não é só de quem fala; ela exige ouvido atento. O desequilíbrio começa quando se fala demais e se escuta de menos.
Hoje, numa sociedade marcada pela rapidez, pelas redes sociais e pela banalização do discurso, corremos o risco de esquecer o peso ancestral da palavra. Insultos circulam sem rosto, promessas são feitas sem intenção de cumprir, discursos públicos são lançados sem compromisso com a verdade. Mas a cultura lembra-nos: “A palavra pode curar, mas também pode matar.” Dizer é um ato moral.
Quem fala assume uma posição diante da comunidade. Quem escuta carrega a consequência. Por isso, a palavra não é neutra: ela compromete quem fala e afeta quem escuta. Talvez seja tempo de regressar à escola do terreiro, ao ensino da fogueira, ao silêncio respeitoso dos mais velhos.
Reaprender que falar é um serviço à comunidade, não uma exibição do ego. Que a palavra deve unir, orientar e proteger a vida. Em Angola, como em toda a África, a palavra é sagrada, ou deveria permanecer sagrada. E aquilo que é sagrado exige cuidado.
POR: MÁRIO FILOMENO









