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A ordem dos retratos e a desordem da memória colectiva

Paulo Sérgio por Paulo Sérgio
19 de Dezembro, 2025
Em Opinião
Foto de: CARLOS MOCO

Foto de: CARLOS MOCO

Uma imagem da exposição fotográfica, alegadamente patente na sala do Bureau Político do MPLA, começou a circular nas redes sociais pouco depois da inauguração do imponente edifício que acolhe a sede nacional do partido, em Luanda, e quase abafou o interesse sobre quão úteis para o país serão os equipamentos colocados lá à disposição dos seus funcionários. Bastou isso para reacender, nos últimos dias, um intenso debate político em quase todos os quadrantes da sociedade angolana.

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A celeuma nasceu da ordem dos retratos expostos, visto que, depois da fotografia de Agostinho Neto, o homem que proclamou “perante África e o Mundo a Independência de Angola”, surge a imagem de Lúcio Lara, membro fundador do MPLA, ficando apenas em terceiro plano o retrato de José Eduardo dos Santos, sucessor de Neto e líder do país por mais de três décadas. Para muitos, a disposição não foi um detalhe inocente; para outros, um símbolo carregado de leituras políticas e históricas. Curiosamente, a polémica envolve uma personalidade que tinha verdadeira paixão pela fotografia.

E, mais uma vez, acabou por destapar o véu da facilidade com que a sociedade angolana (sobretudo em tempos de aceleração digital e memória curta) tem relegado para o esquecimento o lugar que determinados protagonistas devem ocupar na nossa memória colectiva, pelo contributo decisivo que deram para a independência nacional e para a construção de um país ideal para todos. Um dos primeiros sinais claros dessa amnésia colectiva entre os jovens nascidos na década de 1980 e nas gerações seguintes ocorreu a 27 de Fevereiro de 2016.

Estávamos na província do Huambo, em reportagem, quando ouvimos, pela Rádio Nacional de Angola, a notícia do falecimento do nacionalista Lúcio Lara, aos 86 anos. Nas horas que se seguiram, as interacções com diversas pessoas, algumas delas integrantes do aparelho do Estado e do sistema judicial, revelaram um quase total desconhecimento sobre o percurso político de uma figura cujo cordão umbilical estava profundamente ligado àquela terra.

Ao escutar as rádios locais, a perplexidade tornou-se ainda maior, pois se falava pouco, ou quase nada, sobre o homem nascido na então Nova Lisboa, o “menino do Huambo” que se fez adulto no Lubango, onde concluiu os estudos secundários, e mais tarde em Coimbra e Lisboa, onde frequentou o ensino superior, antes de se tornar uma das figuras mais influentes da história política angolana.

Lúcio Lara foi secretário-geral do MPLA e exerceu, em 1979, o cargo de Presidente interino da República de Angola, após a morte do seu grande amigo e companheiro de luta, Agostinho Neto, com quem percorreu a longa e difícil marcha rumo à independência. Ao partilhar a minha surpresa com os jornalistas José Kaliengue, então director deste jornal, e Jacinto Figueiredo, hoje sub-editor de fotografia, percebi que não era o único espantado com a “amnésia colectiva”.

As hipóteses pareciam resumir-se a duas: ou as redacções das rádios locais já não contavam com profissionais mais velhos, nascidos antes da década de 1980, ou a juventude que nelas trabalhava desconhecia (e não se esforçara por compreender) o peso histórico do homem que adoptou o nome de guerra Tchiweka, em homenagem à aldeia natal da mãe, e cuja biografia está intrinsecamente ligada à própria história de Angola.

Ecoou-me então na memória o testemunho dos mais velhos Aguiar dos Santos e António Freitas, dois mestres de saudosa memória, que ouvi na redacção do extinto semanário Agora sobre o processo de escolha do substituto do Presidente Agostinho Neto. Aguiar, então director do jornal, sustentava que Lúcio Lara foi, em certa medida, “traído pela cor da pele”.

Filho do comerciante português Lúcio Gouveia Barreto de Lara, chegado a Angola em 1905, e de Clementina Leite, cidadã angolana natural da aldeia de Tchiweka, também filha de português, Lara era, segundo Aguiar, o quadro do MPLA melhor posicionado para ocupar o cadeirão máximo do Palácio da Colina de São José. Contudo, num contexto em que a população angolana era maioritariamente negra e em que os movimentos rivais (UNITA e FNLA) eram liderados por dirigentes negros, esse factor tornou-se politicamente sensível e potencialmente prejudicial para o partido no poder. Um dado que hoje pode parecer irrelevante, mas que, à época, pesou de forma decisiva.

Esse constrangimento manifestou-se já em 1961, quando Lúcio Lara se encontrava em Leopoldville integrado no Comité Director Provisório do MPLA, criado em Conakry. Pressionado pela UPA, liderada por Holden Roberto, que contava com o apoio do “Todo-poderoso” EUA, Lara, Viriato da Cruz e Eduardo dos Santos afastaram-se dessa superestrutura do MPLA, por serem mestiços claros, numa tentativa de reduzir o flanco de ataque político.

Apesar desses preconceitos, Lúcio Lara manteve-se acima das circunstâncias, pois foi um homem que deu o melhor de si à causa da libertação, sem discriminações, moldado por um profundo sentimento de repulsa à opressão colonial, desenvolvido desde a infância e adolescência passadas na Fazenda Aurora e na rua Vicente Ferreira, onde estava situada a casa da sua família, no Huambo.

A sua veia contestatária começou a ganhar forma em 1947, quando, aos 18 anos, passou a integrar associações estudantis em Portugal, nomeadamente o Movimento de Unidade Democrática Juvenil, opositor da ditadura salazarista, enquanto frequentava o ensino superior. Naqueles tempos de incerteza, mas também de grande esperança, a secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império (CEI) transformou-se num espaço de encontro e efervescência política para estudantes oriundos das colónias africanas. Visto que foi aí que Lúcio Lara estreitou relações com figuras como Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, Noémia de Sousa e Eduardo Santos, todos unidos, na clandestinidade, pelo mesmo ideal libertador.

Dez anos depois, em Outubro de 1957, segundo Edmundo Rocha, na obra “Angola: Contribuição ao Estudo do Nacionalismo Moderno Angolano (Volume II)”, Lara terá influenciado o Partido Comunista Português (PCP) a assumir uma posição clara a favor da autodeterminação e independência das colónias.

Nessa fase, era já um dos principais dinamizadores do Clube Marítimo Africano de Lisboa, onde ajudou a materializar uma inédita aliança entre intelectuais africanos progressistas e trabalhadores marítimos, mantendo contactos com movimentos nacionalistas de orientação marxista como o PLUAA e, posteriormente, o MIA, sediados em Angola. Em 1958, Lúcio Lara e a esposa, Ruth Lara, aceitaram com particular honra o convite para serem padrinhos de Maria Eugénia no enlace matrimonial que contraiu com o seu grande amigo Agostinho Neto. A cerimónia realizou-se a 27 de Outubro, no mesmo dia em que Neto concluía a licenciatura em Medicina.

No entanto, o envolvimento político colocou-o definitivamente na mira da PIDE e, temendo a prisão iminente, em meados de 1959 fugiu para a Alemanha, onde reencontrou Viriato da Cruz, o jovem prodígio que redigira, três anos antes, o célebre Manifesto de 1956, documento fundador do MPLA. Como muitos nacionalistas da época, Lara representou incansavelmente o movimento a que se entregara desde a primeira hora, nunca hesitando em assumir riscos pessoais elevados.

Um desses episódios é relatado por Maria Eugénia Neto, a sua afilhada de casamento, no livro “Memórias de Jenny: a noiva do vestido azul”, de autoria do jornalista Artur Queiroz. Segundo o testemunho, já de regresso a Angola, um grupo de sabotagem recrutado pela CIA, integrado por agentes da polícia portuguesa, tentou assassinar Lúcio Lara e outros dirigentes.

“Foi o primeiro aviso de que o movimento liderado por Agostinho Neto teria uma vida difícil”, recorda a antiga Primeira-Dama, defendendo que, pelos seus feitos, o dia da morte de Lara deveria ter sido declarado tolerância de ponto.

É à luz desse percurso que se compreende melhor a simbologia e a sensibilidade em torno da posição do retrato de Lúcio Lara na galeria do Bureau Político do MPLA. Como sublinha Edmundo Rocha, ele foi, até à independência e depois dela, “o fiel amigo, o colaborador mais íntimo e o conselheiro mais apreciado de Agostinho Neto”. Mais do que uma fotografia numa parede, está em causa a forma como Angola escolhe lembrar ou esquecer os seus protagonistas.

Jornalista

Paulo Sérgio

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