África vive uma transição histórica silenciosa. Não é uma ruptura anunciada por revoluções visíveis, mas uma mudança mais profunda: a redefinição do papel das suas elites estratégicas no século XXI. Durante décadas, o continente foi descrito por terceiros, narrado por interesses externos e enquadrado por métricas produzidas fora das suas fronteiras. Hoje, essa realidade começa a alterarse.
Mas a pergunta central permanece: quem está preparado para assumir a responsabilidade de conduzir esta nova fase? A África contemporânea já não pode ser gerida com mentalidade de sobrevivência. Exige visão de arquitectura. Durante muito tempo, muitas lideranças africanas operaram em modo reactivo: reagindo a crises, a pressões externas, a ciclos eleitorais ou a agendas impostas.
Mas o mundo mudou. Hoje: • reputação é capital, • narrativa é poder, • estratégia é soberania. Em Angola existe um provérbio que diz: “quem não amarra a canoa, perde-a na corrente.” No sistema internacional actual, os países que não estruturam a sua posição estratégica acabam conduzidos pelos interesses de outros. A corrente geopolítica é forte. Só navega com estabilidade quem prepara o rumo antes de entrar no rio.
África possui a maior população jovem do mundo. Mas juventude não é número — é direcção. Capital humano não se activa por discurso. Activa-se por investimento estruturado, educação relevante, mobilidade social e plataformas reais de protagonismo. Há outra expressão angolana que ensina: “a panela não ferve com um só pau.”
Nenhuma sociedade se desenvolve concentrando decisão e oportunidade num pequeno grupo. O crescimento sustentável exige inclusão, coordenação e multiplicação de competências. A juventude precisa de ser integrada como força produtiva, não apenas celebrada como símbolo demográfico. O poder global deixou de ser medido apenas por força militar ou recursos naturais. Hoje mede-se por percepção.
O País que comunica melhor, organiza melhor, governa com previsibilidade e demonstra estabilidade torna-se naturalmente atractivo. Soft power não é luxo. É instrumento estratégico.
Desporto, cultura, educação, inovação e diplomacia económica tornaram-se extensões da política externa. Quem ignora isso perde influência antes mesmo de disputar espaço. Muitos governos confundem marca-país com slogan. Não é. Marca-país é alinhamento entre: • governação interna, • política externa, • estabilidade institucional, • segurança jurídica, • comunicação estratégica, • e entrega de resultados.
Em Angola, diz-se também que “o Kwanza não corre sozinho.” A força do rio resulta dos afluentes que o alimentam. Da mesma forma, a reputação internacional de um País resulta da soma coerente das suas políticas, das suas instituições e da sua estabilidade interna.
Sem alinhamento, não há fluxo consistente de confiança. A questão central é simples: as elites africanas estão preparadas para pensar a 20 anos? Ou continuam prisioneiras do curto prazo? O continente não precisa apenas de líderes carismáticos. Precisa de arquitectos institucionais. Precisa de gestores de longo prazo. Precisa de estrategas que compreendam que o poder moderno constrói-se em camadas: políticas, económicas, culturais e comunicacionais. A responsabilidade das elites deixou de ser administrar.
Passou a ser estruturar. Num mundo multipolar, ninguém permanece neutro. Ou se posiciona ou é posicionado. África possui recursos, juventude, localização geoestratégica e relevância demográfica. Mas potencial não equivale a influência. Influência exige coordenação. Exige visão regional. Exige liderança estratégica. O futuro africano será decidido pela capacidade das suas elites em construir instituições sólidas, reputação credível e narrativa própria. O século XXI não pertence aos mais ricos. Pertence aos mais organizados.
A nova responsabilidade das elites africanas é abandonar a improvisação e assumir a arquitectura estratégica como método de governação. África não precisa apenas de crescimento económico. Precisa de posicionamento. Não precisa apenas de visibilidade. Precisa de influência. E influência não nasce do acaso. Nasce da estratégia.
Por: EDGAR LEANDRO








