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A memória que honra e o dever que une

Jornal OPaís por Jornal OPaís
27 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Nas últimas horas, está a circular nas redes sociais e em diversas plataformas digitais um texto da autoria do jornalista Jorge Eurico, intitulado “O SILÊNCIO DOS INDECENTES”, no qual se afirma que o MPLA teria abandonado o militante Octávio Pedro Capapa, deixando-o, segundo o autor, órfão, esquecido e sem dignidade.

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Trata-se, para quem já teve contacto com texto, seja na íntegra ou em partes, de uma narrativa forte, emocional e sensível. Mas quando o assunto é a dignidade de um cidadão que dedicou parte da sua vida à defesa da pátria, o país não pode guiar-se por percepções isoladas, mas, sim, deve pela verdade, pela responsabilidade e pelo respeito à memória colectiva.

Antes de mais, é fundamental reafirmar um princípio que transcende qualquer organização política, ou seja qual for o espectro partidário: nenhuma nação digna abandona os seus filhos que, em momentos decisivos, ergueram a voz em defesa da soberania nacional.

Octávio Pedro Capapa não foi apenas um militante do MPLA.

Foi, acima de tudo, um cidadão que soube interpretar o seu tempo e intervir quando Angola atravessava uma das suas fases mais delicadas, após os Acordos de Bicesse, ocorrido em 1991, e as primeiras eleições multipartidárias de 1992. Nesse período, a pátria estava numa encruzilhada histórica, e vozes firmes como a sua ajudaram a sustentar a consciência nacional. Importa esclarecer, com sentido de verdade e justiça, que não corresponde aos factos a ideia de abandono. Pelo contrário, o MPLA tem demonstrado atenção e acompanhamento.

O dirigente Nelo Victor, Director para Informação e Propaganda do Comité Central, tem mantido contacto directo, permanente e responsável com os familiares de Octávio Pedro Capapa, acompanhando a evolução do seu estado clínico e procurando obter informações actualizadas sobre os procedimentos médicos em curso. Este gesto não é simbólico. É humano. É institucional. É patriótico.

Em momentos de fragilidade, o verdadeiro compromisso não se mede pelo ruído público, mas pela presença efectiva. Nem sempre a solidariedade se manifesta em comunicados ou anúncios.

Muitas vezes, manifesta-se no silêncio digno da acção concreta, no contacto directo com a família, no cuidado discreto e na responsabilidade moral de quem compreende a gravidade da situação. Recordemos também que Octávio Pedro Capapa construiu a sua relevância não apenas como militante do MPLA, mas como voz activa na defesa da soberania nacional.

No programa “Angola Combatente”, que, como eu, acredito que muitos que estão a ler este artigo, não deixavam de acompanhar sequer uma edição, a sua intervenção foi marcada por uma irreverência consciente, não orientada para servir interesses partidários imediatos, mas sim para defender aquilo que considerava ser o interesse supremo da nação: a integridade e a soberania de Angola.

Essa postura valeu-lhe respeito e, paradoxalmente, até reconhecimento por adversários políticos. Segundo testemunhos da época, o próprio Jonas Savimbi, fundador da UNITA, terá referido-se a ele como um “rebelde de estimação”. Esta expressão, longe de diminuir a sua importância, revela o impacto e a singularidade da sua personalidade. Ele não era apenas um homem de Partido e do Partido. Era um homem de convicções.

Um homem da pátria. É precisamente por isso que o debate actual deve elevar-se acima da lógica da acusação e da exploração emocional. A condição clínica de um cidadão angolano, sobretudo de alguém que contribuiu para a afirmação da consciência nacional, deve ser um motivo de união e não de divisão.

O sofrimento humano não deve ser instrumentalizado; deve ser acolhido com solidariedade, respeito e responsabilidade colectiva. Angola é uma nação construída sobre a memória. A sua história é feita de homens e mulheres que, em momentos decisivos, escolheram o lado da dignidade nacional.

O MPLA, como parte integrante dessa história, não é uma entidade abstracta. É composto por pessoas, por consciências, por responsabilidades e por uma herança que não pode ser negada nem apagada por narrativas momentâneas.

A memória colectiva não é curta. Ela é profunda. E é precisamente essa profundidade que impede o esquecimento daqueles que ajudaram a sustentar os alicerces da nação O momento actual exige menos acusações e mais solidariedade. Exige menos ruído e mais humanidade.

Exige que todos, instituições, cidadãos e sociedade, se unam em torno de um princípio simples e inegociável: nenhum filho desta terra deve ser deixado para trás.

Porque, no fim, o que está em causa não é apenas o destino de um homem. É a dignidade de uma nação inteira. E Angola, quando fiel à sua essência, honra os seus. Sempre.

Por: NZONGO BERNARDO DOS SANTOS

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