Entrementes, acredita-se num sujeito heterogéneo que, através da sua prática cotidiana e relacionamento com o meio social, constrói o seu pensamento e isto pode incluir desejos e posicionamento diante da realidade. Assim, num mundo de ideias, as palavras são usadas de acordo com a vontade de quem as manipulam.
Na verdade, Platão e Aristóteles já nos tinham advertido sobre a importância de não moldar os conteúdos da palavra aos caprichos e, assim como, da facilidade aparente com que a linguagem podia ser instrumentalizada em benefício de ente particular.
Na ausência do exercício da linguagem, somente o silêncio poderia preencher o vazio e, desta maneira, evita-se o distanciamento do sujeito com a realidade. A este respeito, no Tratado Lógico-Filosófico de Wittgenstein, “acerca daquilo de que não se pode falar, tem de se ficar em silêncio”.
Contudo, neste quesito, referimo-nos ao silêncio que vê e fala sobre as profundezas da alma e da realidade. Precisa-se, obviamente, de estar atento aos ruídos audiovisuais propagandeados pelas médias para perceber o sentido e intencionalidade das suas mensagens, pois, diz-se tudo mediante a palavra e não se aborda com propriedade quase nada.
Qual é a consequência deste acto tão mínimo? Bem, a linguagem esvaziou o seu sentido, o seu significado, seu signo, o seu conteúdo e, na maioria das vezes, tornou-se meramente peça publicitária. Face ao exposto, leva-nos a apreender que não é a actividade mental que organiza a expressão, ao contrário, é a expressão (linguagem) que organiza a actividade mental, que a modela e determina sua orientação.
Contudo, tudo o que deveríamos fazer seria observar qual o uso que é feito da linguagem, ou melhor, como os sujeitos usam a linguagem: “a linguagem é vista como acção e como forma de actuação sobre o real e, portanto, de constituição do real, e não meramente de representação ou correspondência com a realidade” (Austin, 1990, p.10).
Assim, é por meio da linguagem que se humaniza a sociedade, por isso é fundamental que nas relações sociais ela possa ser valorizada e incentivada para a construção de um ouvinte pensante e crítico.
Necessariamente, para que a linguagem não seja corrompida com as más ideologias, é necessário o exercício ético, deste modo, ela dissociar-se-á do interesse particular e servirá de ferramenta para a construção do bem comum que é materializada na dignidade humana.
Por outra, é crucial reduzir drasticamente o consumo de notícias, afastar-se do ruído diário, desconfiar da linguagem repetitiva da imprensa, dos clichés, das explicações automáticas. Não porque nada importe, mas porque quase tudo ali, na maioria das vezes, foi feito para capturar atenção, não para formar nossa inteligência.
Por conseguinte, o exercício da linguagem, enquanto capacidade humana, tem passado de uma utopia. Não podemos permitir que as más ideologias criem ilhas sociais nas nossas relações pessoais e interpessoais. De facto, precisamos de preencher os vazios expressivos da comunicação difundidos pelas ideologias.
Por: JOÃO BAPTISTA CUNHA
*(Escritor, Professor, Licenciado no Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCED-Huambo e Membro da Brigada Jovem de Literatura-Huambo









