Em muitos bairros de Angola, sobretudo na cidade de Luanda, assiste-se a uma cena que já parece fazer parte do próprio tecido urbano: escolas rodeadas por bares. Não é raro encontrar, mesmo à porta de uma instituição de ensino, um estabelecimento onde se serve álcool a qualquer hora do dia.
Esta proximidade geográfica, que poderia parecer uma coincidência, denuncia, na verdade, um problema estrutural e silencioso — uma convivência disfuncional entre o espaço da formação e o espaço da alienação. Ao fim de uma manhã de aulas, vê-se o professor, exausto, a dirigir-se ao bar para “acalmar o stress” ou “esfriar a cabeça”.
Afinal, lecciona em turmas numerosas, muitas vezes sem recursos, num sistema que exige muito e oferece pouco. Também ele é vítima de uma estrutura que o sobrecarrega e pouco o valoriza.
O bar torna-se assim uma espécie de abrigo informal, uma pausa que, mesmo nociva, parece oferecer alívio. Mas não são apenas os docentes que procuram este refúgio. Cada vez mais, jovens adolescentes — muitos ainda de uniforme — entram e saem dos bares, com uma “ngala” na mão, como se fosse extensão do material escolar. O acto de beber já se integrou ao quotidiano de muitos alunos como um hábito cultural.
“Depois da aula vamos acalmar os nervos”, dizem uns. “A vida está dura”, repetem outros. O álcool, vendido sem restrição e consumido sem reflexão, tornou-se parte da paisagem emocional de uma juventude que não encontra espaços alternativos de expressão ou de acolhimento.
É preocupante que a escola, espaço por excelência da formação do cidadão, partilhe fronteiras tão ténues com o bar, onde muitas vezes se destrói o que na sala de aula se tenta construir. Se a escola é um projecto de futuro, o bar — nestes moldes — torna-se símbolo de desistência, de pausa sem regresso. E o mais grave é que este casamento entre os dois espaços não levanta escândalo; parece, a olhos vistos, normal. Tornouse parte da rotina.
Ninguém se espanta. Esta realidade, no entanto, não é fruto apenas da vontade individual. É reflexo de uma sociedade em crise, onde os espaços públicos de cultura, lazer saudável e convivência construtiva são quase inexistentes. O jovem que escolhe o bar não está necessariamente a recusar a escola; muitas vezes, está apenas a reagir ao vazio que o rodeia.
A falta de bibliotecas acessíveis, centros culturais ou programas de apoio à juventude deixa um buraco que o álcool se apressa a preencher. Precisamos de uma educação que ultrapasse os muros da escola, que se estenda ao bairro, à rua, à cidade.
recisamos de políticas públicas que regulem os espaços em redor das instituições educativas, mas, mais do que isso, precisamos de criar alternativas. Se o bar é o único lugar onde o jovem sente que pode existir, rir, partilhar ou simplesmente estar, então há necessidade de se rever outras formas de proporcionar isto aos Jovens.
Por: LUDYJÚNIOR DIAS







