Uma investigação do Sudan Tribune sobre os campos de deslocados na região de Darfur e no Leste do Tchad revela uma falha sistemática na resposta humanitária internacional em contabilizar milhares de sudaneses com deficiência, deixando uma população altamente vulnerável presa em um ciclo de desnutrição e negligência médica
Os dados recolhidos por investigadores de campo e grupos de ajuda humanitária indicam que, embora as pessoas com deficiência representem cerca de 22% das famílias deslocadas em áreas como Tawila, no Norte de Darfur, menos de 10% das pessoas registadas têm acesso a dispositivos de apoio es- senciais ou a cuidados médicos especializados.
A investigação revelou que a ausência de um censo oficial abrangente por parte das organizações internacionais criou um “vácuo estatístico”. Essa lacuna impede a alocação de financiamento específico para próteses, aparelhos auditivos e in- fra-estruturas acessíveis, excluindo, na prática, uma parcela significativa da população deslocada do auxílio global. Barreiras físicas à sobrevivência.
Nos campos de Ardemi e Tawila, o ambiente físico tornou-se uma ameaça tão grande quanto o próprio conflito. A Reuters conversou com vários deslocados internos que foram obrigados a abandonar as suas cadeiras de rodas durante a fuga de ataques paramilitares, apenas para descobrir que o terreno arenoso e acidentado dos cam- pos torna a locomoção independente impossível.
O modelo de distribuição de ajuda “tamanho único” usado por muitas agências não leva em consideração as pessoas com mobilidade reduzida. Testemunhas descreveram um crescente “imposto sobre a deficiência”, em que aqueles que não conseguem percorrer longas filas na areia para conseguir comida e água precisam vender parte de suas parcas rações para pessoas sem deficiência para que os suprimentos sejam entregues nas suas barracas. Colapso médico e educacional As consequências dessa negligência são frequentemente irre-versíveis.
Profissionais de saúde da região alertam que a falta de fisioterapia especializada está a transformar lesões de guerra tratá- veis em deficiências permanentes. “Estamos a ver uma geração de ‘recém-deficientes’ cujas condições estão a se agravar porque a resposta se concentra apenas em cirurgias de trauma, e não em reabilitação a longo prazo”, disse um médico local, falando sob condição de anonimato por medo de represálias. O problema se estende às “escolas de tenda” administradas por ONGs. Um levantamento das instalações educacionais em três grandes campos revelou a ausência total de professores treinados em língua de sinais ou Braille, o que efectiva- mente põe fim à educação de crianças que perderam a audição ou a visão durante a guerra.









