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Barricadas tomam conta de ruas desertas de Maputo ocupadas por manifestantes

Barricadas tomaram conta esta quinta-feira de Maputo, com ruas e avenidas centrais praticamente sem viaturas, ocupadas por manifestantes, pedras, contentores do lixo, ferros, paus e tudo o que permita bloquear a passagem, em mais uma acção de protesto pós-eleitoral

Jornal Opais por Jornal Opais
29 de Novembro, 2024
Em Mundo

Embora com menos trânsito face ao normal, as viaturas ainda circulavam na capital moçambicana, mas progressivamente as principais avenidas e ruas de Maputo começaram a ser tomadas por manifestantes, que respondiam a um novo apelo do candidato Venâncio Mondlane, para paralisação e contestação aos resultados anunciados das eleições gerais de 9 de outubro, que ainda têm de ser validados pelo Conselho Constitucional.

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No cruzamento entre as avenidas Eduardo Mondlane e Guerra Popular, centro de Maputo, os manifestantes, com cartazes de contestação, voltaram a puxar à força de braços enormes contentores do lixo para o centro da via, já ocupada com todo o tipo de pedras e detritos, e impediam à força qualquer tentativa de passagem por automobilistas, enquanto a polícia apenas assistia.

Uma hora depois, um grupo de militares, que têm estado a assegurar operações de limpeza das vias nestes protestos, ainda conseguiram remover dois contentores, rebocados pelas viaturas blindadas, que voltaram ao centro da rua, minutos depois, novamente puxadas à força por dezenas de manifestantes em festa, que depois jogavam à bola, sentavam-se em cadeiras e dançavam numa avenida deserta que, num dia normal, é das mais congestionadas da capital. “Não.

Aqui tudo está bloqueado”, explica o vendedor ambulante José Luís dos Santos, avisando que todos “devem respeitar” e não tentar passar: “Aqui o povo é que manda. Aqui há muita polícia nos cantos, mas não vêm aqui intervir“.

De apito na boca, como centenas de outros, deixou de trabalhar para “apoiar o povo” e garante que só vai para casa ao final do dia, mesmo sem fazer negócio, para controlar quem tentar passar de carro.

“Estamos a organizar o país. É muito preciso o que está a acontecer, o povo já sofreu de mais. Isto aqui não é uma brincadeira (…) O mundo está a ver, lá fora, não é apenas Moçambique“, acrescenta, garantindo: “Estamos cansados de tanto sofrimento, injustiça”.

Por toda a cidade existem esta quinta-feira barricadas, montadas com tudo o que está à mão, e em alguns locais a tentativa de passagem ‘obriga’ ao pagamento de uma ‘portagem’, de alguns meticais, enquanto os jornalistas só passam em segurança devidamente identificados pelos manifestantes pelos microfones, câmaras de vídeo e fotográficas.

Num dia em que poucos comércios voltaram a abrir portas, timidamente, algumas pessoas conseguiram levar alguns equipamentos de uma loja de artigos eletrónicos da avenida Guerra Popular, levando os proprietários a encerrar rapidamente o estabelecimento, sem mais incidentes.

No cruzamento da avenida Eduardo Mondlane, precisamente no local onde na quarta-feira, no primeiro dia desta nova fase de protestos, uma jovem manifestante foi violentamente atropelada por uma viatura blindada militar, Ambassa Xavier foi dos primeiros a chegar, para cortar a via, afirmando que o povo quer “a verdade eleitoral” e “organizar o país”.

“Não está a dar para nós, moçambicanos, então nós preferimos reivindicar aquilo que a gente votou. Como moçambicanos temos o direito de escolher quem quisermos“, afirma, já com aquela avenida praticamente sem movimento e várias barricadas ao longo da sua extensão. “Hoje não se passa aqui. Todas as vias estão bloqueadas, vamos manter até amanha”, explica.

O mesmo cenário era visível noutras artérias centrais de Maputo ou na entrada dos bairros dos subúrbios, bloqueadas com pedras, pneus e até sofás, enquanto grupos de crianças e jovens aproveitavam para jogar à bola em ruas que, normalmente, são de grande movimento automóvel.

Na avenida Joaquim Chissano, enormes vigas de ferro bloqueiam por completo a circulação automóvel, repetindo-se o cenário de manifestantes com apitos, vuvuzelas e cartazes a substituir os carros, tal como na avenida Acordos de Lusaka, em que numa mesa colocada no centro da rua eram servidas bebidas e ninguém passava de carro.

“A verdade pura é essa. Não se passa. Isto vai continuar até amanhã, vamos esperar a próxima etapa daquilo que ele [Venâncio Mondlane] vai dizer para cumprir e estamos sempre com ele, mesmo estando fora do país”, conta, sentado à mesa, o líder deste grupo de manifestantes. “Não queremos comentários, queremos saber a reposição eleitoral, de facto quem ganhou”, acrescenta ainda.

O candidato presidencial Venâncio Mondlane tinha apelado na terça-feira à população moçambicana para, durante três dias, começando na quarta-feira, abandonar os carros a partir das 8h00 nas ruas, com cartazes de contestação eleitoral, até regressarem do trabalho.

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